Por: Lindamir Salete Casagrande

A Copa do Mundo FIFA de Futebol Masculino é um dos maiores eventos esportivos do planeta. Reúne países do mundo todo em busca de gravar seus nomes na história do torneio. Para os brasileiros tem um sabor especial, afinal somos o único país que participou de todas as edições da Copa desde 1930 e conquistou o título cinco vezes. A última conquista foi em 2002, quando tínhamos craques que praticavam o futebol arte. Ô saudade.
Na edição de 2026 o Brasil segue em busca do hexacampeonato com um time desacreditado, mas brasileiro não perde a esperança. O torneio enfrentou muitos protestos devido a postura do governo de um dos países sede. Esta edição acontece em três países: Canadá, Estados Unidos da América (EUA) e México e o governo estadunidense assumiu posturas inaceitáveis contra alguns países. A seleção do Irã, país que foi atacado pelo exército estadunidense, não pode pernoitar nos EUA, embora tenha jogos naquele país. Teve que ir, jogar e voltar ao Canadá, como se fossem bandidos. Não são! O árbitro Somali Omar Abdulkadir Artan foi impedido de entrar nos EUA onde atuaria na copa sob a acusação de ligações com terroristas. Omar é um homem preto! Xenofobia e racismo a parte, a Copa FIFA está acontecendo e eu estou aqui para falar sobre as mulheres na copa.
Nessa edição da Copa FIFA, o número de mulheres trabalhando na cobertura aumentou sensivelmente. Elas conquistaram espaço como repórteres, comentaristas e narradoras. Tivemos feitos inéditos nessa copa. Foi no jogo disputado por Bélgica e Egito, no dia 15 de junho de 2026 que Renata Silveira protagonizou um feito importante para as mulheres no esporte. Ela foi a primeira mulher a narrar um jogo de copa do mundo diretamente do estádio para uma televisão aberta, a Rede Globo. O feito foi enaltecido pelo comentarista Caio Ribeiro que destacou a importância do momento. Renata, emocionada e feliz, celebrou a oportunidade e demonstrou o contentamento em poder narrar dois gols do placar do jogo que terminou empatado em um a um.
Ao longo de sua carreira ela enfrentou preconceito de torcedores e de alguns colegas que dizem não gostar da narração feita por mulheres. O machismo e a misoginia se manifestam nesses comentários que tratam as narradoras como se fossem todas iguais. Eles não dizem não gosto da narração da fulana. A afirmação é não gosto da narração de mulheres. Compreendo que nossos ouvidos não estão acostumados a ouvir uma mulher no comando do microfone durante uma partida de futebol, mas não podemos aceitar o preconceito. Felizmente as coisas estão mudando e elas estão assumindo essa vitrine profissional.
É importante destacar que Renata, que já era mãe de Bernardo de 12 anos, deu à luz sua filha Rafaela em novembro de 2025. Ela trabalhou até o final da gestação e logo que voltou da licença maternidade comemorou a escalação para cobrir a copa 2026. Ela é uma mulher como outras tantas que precisam conciliar a carreira profissional com a maternidade e está conseguindo graças a rede de apoio com a qual pode contar.
Outro destaque é a participação de Ana Thais Matos e da jogadora Cristiane Rozeira de Souza Silva, maior goleadora dos jogos olímpicos masculino e feminino, como comentaristas. Ana Thais foi a primeira mulher a atuar como comentarista da Rede Globo. Esta é a quarta copa do mundo de futebol que Ana Thais cobre como comentarista. Ela estreou em 2019 no mundial feminino da França e em 2022 estreou como comentarista no mundial masculino do Catar. Nesse torneio enfrentou o preconceito de seu parceiro narrador Galvão Bueno que tentou desqualificar seu comentário, mas ela não permitiu. O episódio repercutiu nas redes sociais e o narrador teve que se justificar. Com o tempo ele acabou se rendendo ao talento da comentarista e em sua despedida das narrações na Rede Globo fez questão de enaltecer o trabalho da colega comentarista.
Em 2023 comentou jogos do mundial feminino da Austrália e Nova Zelândia no qual o Brasil foi eliminado ainda na fase de grupos. Na edição da copa masculina de 2026 Ana Thais compõe a equipe principal de cobertura formada por Everaldo Marques, narrador, o ex-jogador Junior, Cristiane e Ana Thais, comentaristas. Essa equipe é responsável pela transmissão dos jogos do Brasil na copa. Confesso que fico feliz em ver duas mulheres como comentaristas de jogos da nossa seleção. A competência e o conhecimento de ambas engrandecem a transmissão.
Thais também é conhecida por sua luta pelos direitos das mulheres no esporte. Com frequência usa suas redes sociais para denunciar comentários machistas e misóginos que alguns homens ainda proferem sobre seu trabalho e de outras colegas. É uma das vozes mais atuantes na luta por equidade no jornalismo esportivo. Ciente da posição que ocupa, não fica calada diante de manifestações de preconceitos e misoginia.
Cristiane por sua vez, faz sua estreia como comentarista nessa copa. Ela que, aos 41 anos ainda atua como jogadora defendendo o Flamengo, recebeu o convite para se juntar ao time de comentaristas da Rede Globo e a incumbência de comentar jogos da seleção do Brasil e, como não foge de desafios, aceitou, tornando-se a segunda jogadora a ocupar esse espaço. Formiga, também ex-atleta, foi a primeira comentarista na Copa do Mundo do Catar em 2022 e na copa feminina de 2023. Esperamos que as jogadoras do Brasil consigam cada vez mais espaço nas equipes esportivas, assim como os ex-jogadores conseguiram. Formiga e Cristiane abriram as portas e esperamos que elas permaneçam abertas para que cada vez mais mulheres, ex-atletas, adentrem ao jornalismo esportivo.
Também temos que destacar a participação de Karine Alves, repórter responsável por cobrir o dia a dia da seleção brasileira pela Rede Globo e de Fernanda Gentil que atua como repórter da Cazé-TV. Ambas faze um trabalho brilhante diante das câmeras, cada uma com suas características únicas que as tornam indispensáveis para o jornalismo esportivo. Já o SBT tem a ex-árbitra Nadine Basttos no seu quadro de comentaristas de arbitragem. As repórteres Carol Barcellos, Isa Labate, Nina Galiotte, Gabi Martins e Renata Saporito fazem parte da equipe responsável pela cobertura da copa do Mundo FIFA por aquele canal. Muitas outras mulheres estão cobrindo o evento e levando seu talento, competência e conhecimento para informar o público.
As mulheres têm ocupado cada vez mais espaço no jornalismo esportivo, e o público está se acostumando a ouvir futebol pela voz delas. Esse foi, por muitos anos, um reduto masculino, mas agora as mulheres conseguiram romper o “clube do bolinha” e assegurar seu espaço. Cabe lembrar que o Brasil teve por 42 anos um decreto que proibia as mulheres de jogar futebol e nós ainda estamos nos acostumando a vê-las vestindo a camisa dos clubes e da seleção canarinho em campo. A transmissão de jogos femininos em TV aberta é algo recente e tem sido um fator propulsor para o desenvolvimento do esporte. Os estádios estão cada vez mais cheios para ver elas jogarem e as escolinhas recebem um número crescente de meninas que querem ser jogadoras de futebol.
Esperamos que esse seja um caminho sem volta e que as mulheres conquistem cada vez mais espaço e respeito, porque competência elas têm de sobra. Elas estão fazendo um golaço com o microfone em mãos!