Por: Lindamir Salete Casagrande

Nascida no Rio de Janeiro no dia 4 de outubro de 1966, Tatiana Lobo Coelho de Sampaio é uma cientista que devolveu a esperança para muitas pessoas ao redor do mundo. Formada em Biologia, mestra em Ciências Biológicas e doutora em Ciências, demonstrou a vontade de ser cientista desde muito jovem e se tornou uma das maiores do mundo.
Oriunda de universidade pública, aos 27 anos ingressou como docente na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), a mesma que a formou. Buscando aprimorar seus conhecimentos, Tatiana fez estágios pós-doutoral na Universidade de Illinois, nos Estados Unidos da América, e na de Erlangen-Nuremberg, na Alemanha. Paralelamente a carreira docente, construiu uma séria e profícua carreira científica com mais de 40 artigos publicados nas mais renomadas revistas científicas mundiais. Com muita perseverança, ousadia e seriedade, dedicou mais de 25 anos de sua trajetória profissional ao estudo da laminina e criou em laboratório a polilaminina, substância que está devolvendo os movimentos a pessoas vítimas de acidentes que as deixaram paraplégicas ou tetraplégicas.
Em uma entrevista Tatiana contou que iniciou o projeto meio que por acaso. Cansada e desestimulada com a pesquisa que desenvolvia a qual não apresentava bons resultados, em um determinado dia adentrou ao laboratório e foi ver se havia algum material disponível para ela usar em um novo projeto e encontrou a laminina que havia sido adquirida para usar em algum projeto futuro, mas que aguardava alguém se interessar por estudá-la. Com autorização do chefe do laboratório iniciou os estudos sobre essa proteína sem imaginar onde iria chegar.
São mais de 25 anos de dedicação ao estudo, a maioria deles no anonimato de um laboratório da UFRJ e com os recursos e instalações de uma universidade pública. Atualmente Tatiana Sampaio chefia o Laboratório e Biologia da Matriz Extracelular do Instituto de Ciências Biomédicas da UFRJ e se tornou o rosto mais conhecido por traz da criação da polilaminina, medicamento que causou alvoroço das redes sociais a partir de agosto de 2025, quando o caso de um homem que voltou a andar com o uso do medicamento se tornou público e devolveu esperança a milhares de pessoas com lesão medular severa.
Tanto Tatiana quanto Bruno, o paciente que se recuperou plenamente com o uso da polilaminina ressaltam que o resultado se deu por vários fatores que conjuminaram para o excelente resultado. Dentre esses fatores estão: ele ter recebido a medicação menos de 24h após o trauma, fato que não é a regra; ter feito fisioterapia intensa durante o processo de recuperação; a evolução natural que pode ter sido facilitada pela juventude de Bruno; dentre outros.
Por ter o formato de uma cruz, muitos passaram a associar o resultado da pesquisa a questões religiosas, porém, Tatiana consegue diferenciar o que é ciência e o que não é. Sem menosprezar as questões tocantes a fé e a religiosidade, ela afirma que não pode mudar o fato da proteína ter esse formato, mas também não pode ser culpabilizada ou responsabilizada pelas crenças de outras pessoas. Ela se diz uma mulher de fé e não mistura suas crenças ao fazer científico.
A laminina é uma proteína presente em nosso organismo que tem a capacidade de regenerar tecidos nervosos. A polilaminina, por sua vez, é um polímero criado em laboratório a partir dessa proteína e que tem demonstrado capacidade de reconstruir as ligações nervosas rompidas nas lesões na medula espinal quando aplicada diretamente no local da lesão até 72 horas após o rompimento da medula. Os estudos têm evidenciado que essa reconstrução tem capacidade de devolver, total ou parcialmente, os movimentos aos pacientes submetidos ao tratamento. É uma injeção de esperança! Não é milagre, é ciência!
O medicamento está em fase experimental, mas quem está participando do projeto relata avanços importantes na retomada da mobilidade e muitos pacientes têm recorrido aos tribunais para assegurar o uso da droga experimental, alguns com êxito. Eles estão cientes dos riscos em utilizar um medicamento que ainda não foi aprovado, mas, estão dispostos a correr tais riscos para tentar retomar a vida “normal”, ou o mais próximo do que era antes. Em janeiro de 2026 a Anvisa autorizou o estudo clínico do medicamento e, em breve, teremos resultados mais seguros.
Os resultados promissores alçam Tatiana Sampaio ao posto de candidata a ganhar o Prêmio Nobel de Medicina e eu sou uma das entusiastas que acreditam que ele vem. Faz algum tempo que afirmo que o primeiro Nobel brasileiro virá pelas mãos e mente de uma mulher. Agora acredito que ele está próximo e a mais forte candidata no momento é Tatiana Sampaio. Aqui eu estou falando do que eu acredito. Isso não é ciência!
Tatiana é uma mulher brasileira, professora de universidade pública, tantas vezes atacada por pessoas que desconhecem o que é produzido em seu interior, que se tornou cientista e com sua ousadia, coragem, persistência enfrentou os obstáculos que se impuseram na caminhada e contribuiu/contribui de forma significativa para o desenvolvimento científico do país. Mãe de três filhos, ela teve que conciliar a atividade científica com a maternidade, realidade da maioria das mulheres cientistas brasileiras, e conseguiu obter êxito na árdua empreitada.
Estou esperançosa de que a continuidade nos estudos sobre a polilaminina produzirá ótimos resultados. Acredito que o tratamento poderá ser expandido para pessoas com lesões crônicas também, porém, isso o tempo dirá. O processo de desenvolvimento de um medicamento é longo, mas os primeiros passos foram dados por essa grande mulher brasileira que não desiste jamais e o caminho se mostra iluminado. Porém, Tatiana mantém os pés no chão e tenta evitar que as expectativas sejam exageradas. Reconhece que as pesquisas ainda estão em desenvolvimento, mas não nega que há esperança baseada em dados. Sem falsa modéstia, ela reafirma que os dados dessa pesquisa são idôneos, e, portanto, a polilaminina pode ser um caminho para a recuperação dos movimentos em pessoas com lesão total ou parcial da medula espinal.
Esse estudo joga os holofotes para a ciência produzida no Brasil, em uma universidade pública e por uma mulher. Se o medicamento for aprovado, certamente será ofertado pelo Sistema Único de Saúde, o SUS. É um trabalho que envolve pessoas e instituições muitas vezes atacadas pela sociedade brasileira que menospreza o trabalho ali realizado sem ao menos conhecê-lo. Por isso não me canso de dizer
“Viva a ciência brasileira!
Viva a universidade pública!
Viva as mulheres cientistas!
Viva o SUS!”
Fontes
COMUNHÃO. Cientista Tatiana Sampaio recebe honrarias no ES. Disponível em: https://comunhao.com.br/tatiana-sampaio-homenageada-no-es/. Acesso em: 15/06/2026.
RODA VIVA. Tatiana Sampaio. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=74sju-jDe_E. Acesso em: 15/06/2026.
VEJA SAÚDE. Tatiana Coelho de Sampaio: conheça a história da criadora da polilaminina. Disponível em: https://saude.abril.com.br/medicina/tatiana-coelho-de-sampaio-conheca-a-historia-da-criadora-da-polilaminina/. Acesso em: 15/06/2026.
WIKIPEDIA. Tatiana Sampaio. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Tatiana_Sampaio. Acesso em: 1Fontes