Mulheres na Copa do Mundo FIFA de Futebol Masculino 2026

Por: Lindamir Salete Casagrande

Caricatura de Renata Silveira produzida por IA.

A Copa do Mundo FIFA de Futebol Masculino é um dos maiores eventos esportivos do planeta. Reúne países do mundo todo em busca de gravar seus nomes na história do torneio. Para os brasileiros tem um sabor especial, afinal somos o único país que participou de todas as edições da Copa desde 1930 e conquistou o título cinco vezes. A última conquista foi em 2002, quando tínhamos craques que praticavam o futebol arte. Ô saudade.

Na edição de 2026 o Brasil segue em busca do hexacampeonato com um time desacreditado, mas brasileiro não perde a esperança. O torneio enfrentou muitos protestos devido a postura do governo de um dos países sede. Esta edição acontece em três países: Canadá, Estados Unidos da América (EUA) e México e o governo estadunidense assumiu posturas inaceitáveis contra alguns países. A seleção do Irã, país que foi atacado pelo exército estadunidense, não pode pernoitar nos EUA, embora tenha jogos naquele país. Teve que ir, jogar e voltar ao Canadá, como se fossem bandidos. Não são! O árbitro Somali Omar Abdulkadir Artan foi impedido de entrar nos EUA onde atuaria na copa sob a acusação de ligações com terroristas. Omar é um homem preto! Xenofobia e racismo a parte, a Copa FIFA está acontecendo e eu estou aqui para falar sobre as mulheres na copa.

Nessa edição da Copa FIFA, o número de mulheres trabalhando na cobertura aumentou sensivelmente. Elas conquistaram espaço como repórteres, comentaristas e narradoras. Tivemos feitos inéditos nessa copa. Foi no jogo disputado por Bélgica e Egito, no dia 15 de junho de 2026 que Renata Silveira protagonizou um feito importante para as mulheres no esporte. Ela foi a primeira mulher a narrar um jogo de copa do mundo diretamente do estádio para uma televisão aberta, a Rede Globo. O feito foi enaltecido pelo comentarista Caio Ribeiro que destacou a importância do momento. Renata, emocionada e feliz, celebrou a oportunidade e demonstrou o contentamento em poder narrar dois gols do placar do jogo que terminou empatado em um a um.

Ao longo de sua carreira ela enfrentou preconceito de torcedores e de alguns colegas que dizem não gostar da narração feita por mulheres. O machismo e a misoginia se manifestam nesses comentários que tratam as narradoras como se fossem todas iguais. Eles não dizem não gosto da narração da fulana. A afirmação é não gosto da narração de mulheres. Compreendo que nossos ouvidos não estão acostumados a ouvir uma mulher no comando do microfone durante uma partida de futebol, mas não podemos aceitar o preconceito. Felizmente as coisas estão mudando e elas estão assumindo essa vitrine profissional.

É importante destacar que Renata, que já era mãe de Bernardo de 12 anos, deu à luz sua filha Rafaela em novembro de 2025. Ela trabalhou até o final da gestação e logo que voltou da licença maternidade comemorou a escalação para cobrir a copa 2026. Ela é uma mulher como outras tantas que precisam conciliar a carreira profissional com a maternidade e está conseguindo graças a rede de apoio com a qual pode contar.

Outro destaque é a participação de Ana Thais Matos e da jogadora Cristiane Rozeira de Souza Silva, maior goleadora dos jogos olímpicos masculino e feminino, como comentaristas. Ana Thais foi a primeira mulher a atuar como comentarista da Rede Globo. Esta é a quarta copa do mundo de futebol que Ana Thais cobre como comentarista. Ela estreou em 2019 no mundial feminino da França e em 2022 estreou como comentarista no mundial masculino do Catar. Nesse torneio enfrentou o preconceito de seu parceiro narrador Galvão Bueno que tentou desqualificar seu comentário, mas ela não permitiu. O episódio repercutiu nas redes sociais e o narrador teve que se justificar. Com o tempo ele acabou se rendendo ao talento da comentarista e em sua despedida das narrações na Rede Globo fez questão de enaltecer o trabalho da colega comentarista.

 Em 2023 comentou jogos do mundial feminino da Austrália e Nova Zelândia no qual o Brasil foi eliminado ainda na fase de grupos. Na edição da copa masculina de 2026 Ana Thais compõe a equipe principal de cobertura formada por Everaldo Marques, narrador, o ex-jogador Junior, Cristiane e Ana Thais, comentaristas. Essa equipe é responsável pela transmissão dos jogos do Brasil na copa. Confesso que fico feliz em ver duas mulheres como comentaristas de jogos da nossa seleção. A competência e o conhecimento de ambas engrandecem a transmissão.

Thais também é conhecida por sua luta pelos direitos das mulheres no esporte. Com frequência usa suas redes sociais para denunciar comentários machistas e misóginos que alguns homens ainda proferem sobre seu trabalho e de outras colegas. É uma das vozes mais atuantes na luta por equidade no jornalismo esportivo. Ciente da posição que ocupa, não fica calada diante de manifestações de preconceitos e misoginia.

Cristiane por sua vez, faz sua estreia como comentarista nessa copa. Ela que, aos 41 anos ainda atua como jogadora defendendo o Flamengo, recebeu o convite para se juntar ao time de comentaristas da Rede Globo e a incumbência de comentar jogos da seleção do Brasil e, como não foge de desafios, aceitou, tornando-se a segunda jogadora a ocupar esse espaço. Formiga, também ex-atleta, foi a primeira comentarista na Copa do Mundo do Catar em 2022 e na copa feminina de 2023. Esperamos que as jogadoras do Brasil consigam cada vez mais espaço nas equipes esportivas, assim como os ex-jogadores conseguiram. Formiga e Cristiane abriram as portas e esperamos que elas permaneçam abertas para que cada vez mais mulheres, ex-atletas, adentrem ao jornalismo esportivo.

Também temos que destacar a participação de Karine Alves, repórter responsável por cobrir o dia a dia da seleção brasileira pela Rede Globo e de Fernanda Gentil que atua como repórter da Cazé-TV. Ambas faze um trabalho brilhante diante das câmeras, cada uma com suas características únicas que as tornam indispensáveis para o jornalismo esportivo. Já o SBT tem a ex-árbitra Nadine Basttos no seu quadro de comentaristas de arbitragem. As repórteres Carol Barcellos, Isa Labate, Nina Galiotte, Gabi Martins e Renata Saporito fazem parte da equipe responsável pela cobertura da copa do Mundo FIFA por aquele canal. Muitas outras mulheres estão cobrindo o evento e levando seu talento, competência e conhecimento para informar o público.

As mulheres têm ocupado cada vez mais espaço no jornalismo esportivo, e o público está se acostumando a ouvir futebol pela voz delas. Esse foi, por muitos anos, um reduto masculino, mas agora as mulheres conseguiram romper o “clube do bolinha” e assegurar seu espaço. Cabe lembrar que o Brasil teve por 42 anos um decreto que proibia as mulheres de jogar futebol e nós ainda estamos nos acostumando a vê-las vestindo a camisa dos clubes e da seleção canarinho em campo. A transmissão de jogos femininos em TV aberta é algo recente e tem sido um fator propulsor para o desenvolvimento do esporte. Os estádios estão cada vez mais cheios para ver elas jogarem e as escolinhas recebem um número crescente de meninas que querem ser jogadoras de futebol.

Esperamos que esse seja um caminho sem volta e que as mulheres conquistem cada vez mais espaço e respeito, porque competência elas têm de sobra. Elas estão fazendo um golaço com o microfone em mãos!

2020: um ano para ser esquecido, porém, inesquecível

Por: Lindamir Salete Casagrande

A autora

Quando brindávamos a chegada do novo ano, sequer podíamos supor o que aconteceria no ano de 2020. Com o raiar de um novo ciclo, muitos planos são renovados, expectativas, sonhos e promessas são revelados. O sorriso e a alegria são elementos presentes nesses momentos. Juntamos amigos/as e familiares para agradecer o ano que passou e brindar o vindouro.

No dia 31 de dezembro de 2019 não foi diferente, entretanto, 2020 chegou e trouxe consigo um vírus tão pequenino que sequer pode ser classificado como ser vivo e mudou tudo. Da noite para o dia, tivemos que nos recolher e refugiar em nossas casas (que bom que temos casa!). Perdemos o direito de ir e vir, de encontrar as pessoas, de abraçar, de sorrir livremente. As máscaras passaram a ser as peças do vestuário mais importantes, porém elas escondem nossos sorrisos que também perderam muitas das razões de existir. Estamos sorrindo menos, e quando o fazemos, vem um remorso por lembrarmos das famílias que perderam seus entes queridos e não tem motivos para sorrir.

O ano de 2020 foi um ano de muitas perdas. Quase 200 mil mortos no Brasil em decorrência da covid19, doença causada pelo coronavírus, causador da pandemia que assolou o mundo. Quase 200 mil famílias destroçadas por uma doença totalmente fora de controle e tão ignorada por autoridades nacionais e por uma parcela da população.

Outra grande perda foi a crença na humanidade destas pessoas que se recusam a usar máscara, a evitar aglomeração, a ouvir as orientações dadas pelas autoridades científicas e médicas nacionais e mundiais. É difícil ver humanidade nessas pessoas.

Outra característica deste ano foi o aprendizado que ele nos obrigou a construir. Neste ano aprendemos que nossa casa é o nosso refúgio (como eu amo meu cantinho!); que ficar longe é uma forma de demonstrar amor (quanta saudade eu senti e sinto!); que sentimos muita falta do abraço, do afago; que professoras/es são fundamentais para o desenvolvimento das crianças e para a liberdade para trabalhar dos familiares; que universidades não são um antro de balbúrdia e de desocupados (quanta pesquisa foi realizada nas universidades!); que precisamos muito da ciência e dos/as cientistas (Vacina! Vacina! Vacina!); ah o SUS! Que bom que temos o SUS. Quantas vidas ele salvou! Quantos/as profissionais da saúde perderam a vida para salvar as vidas de outros/as!

Neste ano tão sombrio tivemos que nos reinventar, encontrar novas formas de exercer as atividades cotidianas e inventar ou descobrir habilidades que não sabíamos que tínhamos. Durante a pandemia muitas pessoas descobriram onde ficava a cozinha de suas casas (tem um pouquinho de exagero aqui!) e se descobriram com habilidades culinárias jamais supostas. Outros/as encontraram na culinária uma fonte de renda para manter a família. Enfim, se descobriram.

Card de divulgação da última live do ano by Letícia Rodrigues

E as lives? Foram uma excelente iniciativa e levaram arte e conhecimento às redes sociais. O Ary Fontoura virou o muso da internet (adoro os vídeos dele!) e a Marilia Mendonça produziu a live mais vista do ano (foi muita gente assistindo, mesmo!).  Até eu me descobri uma scientific influencer (acho que estou cunhando este termo. Será?). O projeto “Conversando sobre” conduzindo pelo Michel Alves Ferreira e por mim produziu 80 conversas muito bacanas com pessoas que além de muito conhecimento, compartilharam conosco suas histórias e muito afeto. O projeto se tornou uma janela para o mundo (ousada!) e permitiu conhecer muitas histórias e recebermos muito carinho de todas as pessoas que conversaram conosco e das que nos assistiram ao vivo ou viram os vídeos depois. Adoramos a experiência e já estou com saudades. Quero agradecer a Letícia Rodrigues que fez os lindíssimos cards de divulgação das lives.

Capa do livro

Eu também me descobri escritora, ou melhor, contadora de histórias. Em 2020 publiquei três livros muito bacanas. No dia 08 de março lancei o segundo volume da série Meninas, moças e mulheres que inspiram. Este livro conta a história da médica catarinense que adotou o Paraná como seu lugar para viver, Zilda Arns (Ela é paranaense. Pronto falei!). O livro intitulado Zilda Arns: a tipsi que amava as crianças traz a trajetória desta mulher incrível desde a infância até sua morte no terremoto que assolou o Haiti onde ela fazia o que mais gostava. Semeava o amor e o compartilhava o conhecimento. Zilda entendeu como ninguém os ensinamentos de Cristo e semeou amor por onde andou. Quem me ajudou a contar essa história por meio das ilustrações foi a talentosíssima Lucy Ana Soares Camelo Casagrande que também é minha cunhada e estreou como ilustradora neste livro. Obrigada por aceitar o desafio e cumpri-lo tão lindamente.

Capa do livro

No mesmo dia (08/03/2020), atendendo as provocações de pessoas com as quais convivo, publiquei o livro Ervilhas tortas. Este livro é constituído de episódios da infância de Lindinha, uma menina que viveu sua infância lá na roça nos interiores do Paraná. Esta menina viveu muitas aventuras e desventuras numa vida simples na qual a criatividade tinha que ser acionada para assegurar diversão e lazer. Quem é Lindinha? Use a imaginação para descobrir ou leia o livro que lá eu conto.

Capa do livro

No mês de setembro a série Meninas, moças e mulheres que inspiram ganhou mais um volume. Foi a vez de resgatar a história de uma mulher que viveu nos séculos IV e V d.C. Você já ouviu falar de Hipátia de Alexandria? Não? Asseguro que você vai gostar de conhecer esta grande mulher que amou o conhecimento acima de qualquer coisa. Te convido a conhecer essa história contada no livro Hipátia de Alexandria: a matemática, astrônoma e filósofa lendária. Por que lendária? No livro eu conto. As lindas ilustrações que contam a história por outra linguagem são de Andréa Martau. Grata pela parceria. todos os livros podem ser adquiridos no site da Editora Inverso – http://www.editorainverso.com.br.

É, o ano de 2020 foi muito doloroso, porém não foi um ano perdido. Vimos muitos avanços no campo científico, principalmente para o desenvolvimento da vacina e de equipamentos para melhorar o tratamento desta doença tão cruel que assolou a humanidade. Graças a esses esforços e estudos o índice de mortalidade diminuiu sensivelmente, embora permaneça alto. O aprendizado foi grande e a solidariedade também. Vimos muitas ações sendo feitas para minimizar os impactos da pandemia na vida da população mais carente. Pudemos perceber muitas pessoas deixando seu melhor lado florir, vir à tona.

Agora estamos batendo às portas de 2021 e é hora de renovar as esperanças. Esta renovação é possível por estarmos vendo, ali na frente, a vacina chegando (no Brasil ela está sendo conduzida por uma lesma, mas virá! O descaso dos governantes me irrita e entristece profundamente!). Junto com a vacina vem a esperança dos encontros, dos abraços, dos chás com as amigas, das idas à praia, aos shoppings, das viagens, das aglomerações…

Mas será que voltaremos a viver a vida como antes? Espero que não. Espero que tenhamos aprendido a ser mais solidários/as, a olhar e a enxergar o outro/a, a nos cuidar e cuidar dos/as outros/as, a respeitar a natureza, a valorizar a ciência, as/os professoras/es e o SUS, a nos respeitar. Espero ainda, que a vacina chegue para todas as pessoas e que essas pessoas não acreditem em notícias falsas, invencionices de pessoas mal intencionadas, danosas, inescrupulosas, mau caráter e vacinem-se para que possamos minimizar as consequências desta pandemia.

Que venha 2021 e que seja mais leve. Cuide-se pois eu quero te encontrar bem no novo ano.

I SMSTEM: simpósio reuniu mulheres cientistas do presente e do futuro

Por: Lindamir Salete Casagrande

No último final de semana, 13 e 14 de março de 2020, aconteceu o I Simpósio Brasileiro de Mulheres nas STEM (I SMSTEM) que reuniu mulheres de todas as idades no Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA) em São José dos Campos, São Paulo, Brasil. Foi um momento lindo que ocorreu sob a ameaça do coronavírus que se espalhava pelo Brasil. Mulheres de todo o país se deslocaram, mesmo temerosas, até o ITA para compartilhar os resultados e práticas de seus projetos que estimulam a inserção e permanência de meninas/moças/mulheres nas áreas STEM (Science, Technology, Engeneering and Math) e eu estava dentre elas. Ao dar as boas-vindas ao evento, o reitor do ITA, prof. Dr. Anderson Ribeiro Correia ressaltou que nunca viu tantas mulheres naquele instituto no qual a maioria dos/as estudantes e professores/as são homens. Fizemos história.

Segundo as organizadoras, o evento superou as expectativas no que tange a quantidade de propostas. Foram 182 resumos submetidos e 145 aceitos. Todos apresentavam resultados de experiências bem sucedidas e realizadas nos mais distantes rincões deste país continental. Tivemos 32 apresentações orais e 115 pôsteres que foram divididos em duas seções. A imagem que segue mostra a distribuição dos trabalhos pelo território brasileiro. Os quatro estados com maior número de trabalhos foram São Paulo (44), Minas Gerais (17), Rio de Janeiro (15) e Paraná (12). Apenas 4 estados não compareceram ao evento. São eles, Acre, Ceará, Mato Grosso e Rondônia.

Mapa de distribuição dos trabalhos
Fonte: arquivo pessoal

A grande quantidade de submissões significa que muitas ações estão sendo realizadas pelo país com o intuito de promover a inserção e permanência feminina na área STEM e assim, diminuir gradativamente os obstáculos que a elas se impõe para se consolidarem e serem reconhecidas como cientistas, bem como, o preconceito com relação a participação feminina neste campo do conhecimento.

Foi um momento de muita aprendizagem. Eu arrisco dizer que este foi o Simpósio que mais me acrescentou conhecimento e esperança dentre todos os que tive a oportunidade de participar ao longo de minha trajetória acadêmica. A presença de muitas meninas, sim meninas, estudantes do ensino médio e universitário, renovou as esperanças e deu a certeza de que temos sucessoras. Meninas/moças com lindas iniciativas que possibilitam a maior aproximação e conhecimento de outras meninas/moças sobre o mundo da ciência. Com o conhecimento pode haver o encantamento e a decisão de seguir por este caminho. Este indicativo foi possível perceber nas falas das participantes, no brilho no olhar e no sorriso que era marca constante em seus rostos. Estas expressões injetaram uma dose extra de energia e vontade de continuar atuando junto com elas na transformação da realidade da juventude brasileira, de modo especial da parcela que encontra mais dificuldades e tem menos oportunidades.

Dentre a diversidade de trajetórias e de projetos, uma história chamou a atenção de todas as pessoas que lá estavam. Ela foi evidenciada já na abertura do Simpósio pela fala do vice-reitor Prof. Jesuíno Takachi Tomita que destacou a jornada que ela fez para chegar até São José dos Campos. Foram 12 horas de barco, 8 horas de voo e 1 hora de ônibus, isso tudo acompanhada de uma bebê de pouco menos de um ano de idade. Estou falando de Eliene Santos que pode ser conhecida na imagem que segue. Ela apresentou o projeto As ciências exatas e as “cunhantãs” do Quilombo do Abuí – Oriximiná – Pará. Cunhantã, segundo definição de Eliene, significa meninas/moças guerreiras. Eliene esteve presente em todo o evento e sua filha a acompanhou. Em nenhum momento a bebê chorou, parecia entender a importância da participação de sua mãe naquele momento histórico. Em vários momentos quis oferecer ajuda com a bebê, mas, em tempo de coronavírus, tive que me conter. Certamente muitas outras mulheres tiveram o mesmo sentimento e o mesmo cuidado.

Perseverança e determinação
Fonte: arquivo pessoal

Quando assisti à apresentação de seu projeto pude entender a razão do título, super adequado, diga-se de passagem. Eliene, com sua filha dormindo em seus braços, explicou que as meninas participantes do projeto tinham que se deslocar de barco em viagem que durava 12h desde o Quilombo do Abuí até Oriximiná, ou seja, 12h para ir e outras 12h para voltar. Contou inclusive, que em uma das viagens, o barco ficou à deriva com as crianças a bordo. Sem dúvidas elas, assim como Eliene, são guerreiras.

Eu estive lá apresentando um projeto que será desenvolvido neste ano junto às escolas municipais e estaduais de Curitiba e Região Metropolitana. O projeto Contando histórias de mulheres, inspirando crianças e adolescentes, embora embrionário pois ainda não foi colocado em prática, teve excelente aceitação e algumas participantes manifestaram a intenção de replicar o projeto em seus municípios, fato que me deixou extremamente feliz. Foi uma troca de experiência e de ideias muito produtiva e estimulante. A exposição na forma de pôster permitiu o contato direto com as demais participantes e surgiram muitos convites para fazer parceria e visitar outros projetos com participação em algumas atividades deles. Para que serve a participação em congressos e simpósio? Serve para compartilhar conhecimento, ampliar a rede de relações, planejar parcerias e construir amizades.

Eu e o projeto
Fonte: Arquivo pessoal

No dia 13 de março a tarde tive a oportunidade de lançar meus livros Marie Curie: uma história de amor à ciência, Zilda Arns: a tipsi que amava as crianças e Ervilhas tortas. Foi muito gratificante receber o carinho e apoio das mulheres que ali estavam. Também levamos o livro Ada Lovelace: a condessa curiosa de autoria de minha querida amiga Silvia Amélia Bim que fez muito sucesso por lá. Marie Curie e Ada Lovelace formaram uma linda e poderosa dupla e foram encantar as crianças e adolescentes Brasil afora.

Preparada para as dedicatórias.
Fonte: Arquivo pessoal

Outro momento importante e lindo do evento foi a palestra da profa. Dra. Marcia Barbosa. Ela aliou dados quantitativos e bom humor para denunciar os preconceitos e barreiras que se impuseram ao longo da história das mulheres nas ciências. Nas palavras dela, ciência se faz com pesquisa e dados, então seria baseada em dados que construiria sua fala e assim o fez. Ao final foi aplaudida de pé por uma plateia feminina e que se viu ali representada, tanto pela pessoa de Marcia (inteligente, competente, simpática, bem humorada e generosa), quanto pelos dados por ela apresentados. Aqueles obstáculos lhes eram familiares, elas tiveram que transpô-los para estarem ali.

Depois da palestra, Marcia continuava distribuindo sorrisos e gentilezas e não se negava em registrar aquele momento em muitas fotos. Me chamou a atenção o encanto que provocava nas meninas/moças que a cercavam e em mim também evidentemente. Na imagem que segue, reunimos algumas paranaenses para registrar o encontro com esta mulher encantadora e competentíssima. Sem abraços mas com muito afeto e sorrisos.

Paranaenses marcando presença e tietando
Fonte: arquivo pessoal

Essas são algumas memórias deste Simpósio memorável. Ao final acordamos que o II SMSTEM será realizado novamente no ITA daqui a dois anos (2022). Também acordamos que realizaremos encontros regionais bianuais a partir de 2023. Esperamos vocês lá.

Retornei para Curitiba com as energias renovadas e sem trazer na bagagem o coronavírus. Ufa!

Mulher, mãe e cientista

Por: Lindamir Salete Casagrande

Uma das principais dificuldades enfrentadas pelas mulheres que conciliam (ou acumulam) a maternidade e o fazer científico é participar de eventos científicos. Quem cuidará da criança? Onde deixá-la? Na cultura brasileira, cuidar das crianças ainda é uma atribuição das mulheres, então esta é uma dificuldade que se impõe quase que exclusivamente às mulheres.

Alguns/mas podem dizer que a mulher pode escolher não participar destes eventos. Esta não é uma solução. Os eventos científicos são espaços onde a troca de conhecimento ocorre com maior intensidade, são espaços para ver e ser vista/o, espaços nos quais se tem a oportunidade de dialogar com pares, de construir parcerias e de alavancar a produção do conhecimento, ou seja, não dá paras “escolher” não participar.

Cabe destacar que, na realidade brasileira, professores e professoras são cobrados/as e avaliados/as pela produtividade. Por produtividade entende-se aulas ministradas, publicação de artigos em revistas e eventos científicos, publicação de livros e capítulos de livros, editoração de revistas, orientações de mestrado e doutorado, participação em eventos científicos como ponentes ou participantes de mesas redondas e palestras, dentre outras atividades, ou seja, caso elas não participem de eventos científicos terão sua produtividade e, por consequência, sua avaliação piorada. Serão julgadas como menos capazes do que os homens.

Com o objetivo de facilitar a participação das mulheres mães nestes eventos cientistas brasileiras criaram um manifesto solicitando que os/as organizadores/as de congressos científicos incluam mães cientistas e seus bebês na programação. Essa iniciativa propiciaria a participação mais adequada das mulheres.

Veja a matéria completa no link:

https://revistagalileu.globo.com/Ciencia/noticia/2019/09/em-manifesto-brasileiras-pedem-que-eventos-cientificos-acolham-maes-e-bebes.html?fbclid=IwAR2WgPzVlyHsrdP9GRwcJm0eeYHr-L69vBSC8uxbss6wyLOC9f_8JP63Pb8

Vamos apoiar esta iniciativa.

Baiana ganha prêmio da ONU

Por: Lindamir Salete Casagrande

A discussão sobre a participação das mulheres nas ciências ocorre em diversos espaços, de modo especial, nas universidades. Estudos indicam que há pouco interesse das mulheres por este campo e buscam identificar as razões para este fato. Apontam ainda, que o meio científico, especialmente nas chamadas ciências duras, é hostil às mulheres. A jovem Baiana Anna Luísa Beserra Santos de 21 anos foge a este estereótipo. Desde muito jovem (ela ainda é jovem) manifestou interesse pela carreira científica e o desejo de desenvolver uma ciência que melhorasse a vida das pessoas. Ela conseguiu! Desenvolveu o Aqualuz, equipamento que purifica a água utilizando os raios solares, recurso abundante no nordeste brasileiro. Ela é cria da universidade pública. Graduada em Biotecnologia pela Universidade Federal da Bahia, ela foi a vencedora do Prêmio Jovens Campeões da Terra da Organização das Nações Unidas (ONU) Meio Ambiente. Sua criação visa levar água potável para a população carente, ou seja, melhorar a vida das pessoas.

Hoje Anna é CEO da startup Safe Drinking Water for All (SWD) e coordena uma equipe de 10 pessoas, sendo a maioria, mulheres. Anna é uma inspiração para as jovens estudantes que podem ver na história dela a oportunidade e motivação para se inserir no universo científico, tão importante para o nosso país. A história de Anna também demonstra a importância de se valorizar e defender as universidades públicas. É ai que se desenvolve a maior parte das pesquisas de interesse social.