Por: Lindamir Salete Casagrande

Maria era uma mulher que vivia num recanto qualquer do Brasil, mas poderia viver em qualquer outro lugar do planeta. Reza a lenda que Maria era uma mulher frágil e tola, por isso não poderia estudar, pois o conhecimento sugaria o pouco de energia que lhe restava e tiraria a sua feminilidade e capacidade de gerar filhos. Assim, Maria cresceu longe dos bancos escolares, dos cadernos e dos livros. Longe do saber formal.
Como não sabia ler, seu deslocamento pelo mundo também ficou restrito. Quando ia para o centro da cidade, resolver coisas do cotidiano, tinha dificuldade de tomar ônibus por não conseguir decifrar o destino que estava impresso no painel luminoso na parte superior dianteira do ônibus. Só conseguia retornar para o lar, nem tão doce lar, pedindo ajuda a uma pessoa desconhecida. Maria ficava encabulada em demonstrar sua incapacidade de decifrar as palavras escritas no letreiro, mas, como não tinha outra opção, reunia toda a coragem que existia em seu interior e abordava quem estivesse por perto. Quando encontrava uma pessoa de boa índole e solidária, recebia a informação correta, mas, vez ou outra, um engraçadinho dava a informação errada fazendo com que ela se perdesse num mundo desconhecido e perigoso para aquela mulher simples, ingênua e, por vezes “tola”.
Muitas pessoas se compadeciam da ingenuidade e do desconhecimento de Maria. Ela demonstrava em sua face o sofrimento de uma vida limitada pela lenda da mulher Frágil, mas que precisava ser forte. A consideravam vulnerável, injustiçada e desprotegida, mas nada faziam para que ela saísse daquela realidade cruel. Pobre Maria, estava fadada a viver no mundo escuro do analfabetismo, do desconhecimento. Jamais poderia viajar no mundo encantado de uma história contada em um livro qualquer.
A lenda da forte mulher frágil, que foi inventada pelos homens e fez com que os detentores do poder – médicos, juízes e religiosos – criassem leis e normas que impediam que as mulheres estudassem. Isso durou muito tempo e se espalhou mundo afora, produzindo muitas Marias. Com esse impedimento, poucas mulheres puderam acessar ao mundo da ciência, pois este passava pelo conhecimento adquirido nos bancos escolares e, se elas eram proibidas de acessar a escola, estavam alijadas do mundo científico. Maria faz parte deste grupo que foi mantido longe do conhecimento. Pobre Maria!
Algumas mulheres não aceitavam essa proibição e buscavam meios de romper as barreiras e ter acesso aos bancos escolares e ao mundo científico. Embora fossem poucas, inspiravam outras mulheres a descrer nesta lenda e, assim, cada vez mais Marias se destacam nos diversos campos científicos e constroem um mundo melhor para se viver.
Outras mulheres, mesmo em seu analfabetismo e afastamento do conhecimento formal, dominavam o saber sobre as raízes e ervas, bem como o poder das rezas. Eram as rezadeiras, benzedeiras, raizeiras e curandeiras que tratavam das dores do corpo e da alma e incomodavam os poderosos médicos e religiosos. A essas chamaram de bruxas, associaram elas ao mal e as condenaram a morrer na fogueira. Assim, com tamanha crueldade daqueles que falavam em nome de Deus, se perdia todo o conhecimento que elas detinham e mantinha-se viva a lenda da mulher frágil e incapaz. Que Deus era aquele não sabemos, mas muitas Marias foram assassinadas por isso.
Não foi só na ciência que a tal lenda, permeada de machismo se mostrou. Ela as impediu de se construir e serem reconhecidas como escritoras. Como eram proibidas de publicar suas obras usando seus próprios nomes estavam alijadas do mudo dos livros. Mas elas não assistiram a esses disparates passivamente. Muitas usavam pseudônimos masculinos para ver seus textos publicados, outras resumiam seus nomes às iniciais e assim, a sociedade que estava acostumada a publicar e ler homens, entendia que aquelas iniciais escondiam um autor, jamais supunha que seria uma mulher a produtora daquele texto, muitas vezes, espetacular. Jamais seria uma Maria!
Se estudar e escrever era desgaste demais para elas, imagina o que o esporte causaria no frágil corpo feminino. As provas de longas distância, as maratonas, o futebol, o futebol de salão, a maratona aquática, dentre outras, eram proibidas por lei, no Brasil até pouco tempo. Era a lenda da forte mulher frágil se impondo nesse meio também. Porém muitas Marias ergueram suas vozes e romperam mais essa barreira. A lenda da forte mulher frágil começava a ser enfraquecida neste campo também.
Por outro lado, a lenda diz que Maria é capaz de cuidar da casa, dos filhos, do marido, dos idosos e adoentados da família, além de trabalhar nas casas de outras Marias para assegurar a alimentação da família, afinal, mulheres são capazes de fazer várias coisas ao mesmo tempo e não se cansam jamais. Maria é capaz de gestar um filho atrás do outro, pois a falta de conhecimento não permite que ela evite as gravidezes. Na hora do parto, Maria é submetida a violência obstétrica, pois, afinal, Maria é forte. Na hora da dor do parto ouve a criminosa pergunta “quem mandou abrir as pernas”? Se Maria for uma mulher negra então sequer o direito à anestesia é respeitado, afinal as mulheres pretas não sentem dor. Quem foi que disse isso? Os mesmos homens brancos que as consideram frágeis. Nessa hora a lenda da mulher frágil perde o vigor. Aqui Maria é forte, pode suportar tudo sem reclamar.
Mas, depois de muito sofrimento Maria abriu os olhos e percebeu que sua vida podia ser diferente. Rompeu a barreira do analfabetismo e teve seus olhos abertos para um novo mundo. Deixou de carregar o pesado fardo de fazer tudo sozinha. Se libertou das amarras que a prendiam na ignorância e no isolamento. Percebeu a força de seu corpo e a agilidade de suas pernas e correu, nadou, jogou, lutou. Descobriu o mundo encantado da literatura e viajou nas páginas de vários livros. Escreveu sua própria história e publicou usando o seu nome. Percebeu que a ciência pode ajudá-la a viver melhor. Notou ainda que ela mesma pode ser uma cientista. A Maria “tola” e frágil desapareceu. Maria se libertou!
E o que aconteceu com a lenda da forte mulher frágil? Ficou restrita à mente de quem ainda não a abriu e acordou.







