Por: Lindamir Salete Casagrande

O projeto Samis
O isopor® é um produto muito utilizado pela indústria brasileira. Seu uso auxilia no transporte de produtos frágeis e serve também como utensílios domésticos descartáveis. É um produto prático por ser leve, impermeável, isolante térmico e barato. Seria perfeito se não demorasse cerca de 150 anos para se decompor na natureza. Estudo realizado na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), o Brasil consome quase 37 toneladas de isopor® ao ano. Todo este material, depois de utilizado, vai para o lixo. Um grupo de estudantes de Campo Largo, região metropolitana de Curitiba, estado do Paraná, formado por três alunas e uma professora desenvolveu um estudo para produzir um substituto ao isopor® que fosse mais sustentável.
A equipe formada pelas alunas do Colégio Sesi Alessandra Akemi Hashimoto Fragoso, Amanda de Souza Maloste e Jessica Cristina Burda e pela professora de biologia Juliana de Fátima Cunha Vidal, ao participar da olimpíada interna do Sesi, foi desafiada a descobrir uma nova aplicação para algum alimento/vegetal produzido na região. Ao desenvolver a pesquisa constataram que o milho era o alimento mais cultivado na região e responsável pela produção de um grande volume de resíduos sólidos, dentre eles o sabugo de milho que era raramente reaproveitado. Com base nessa descoberta elas decidiram desenvolver um produto para reaproveitar o material desperdiçado pela indústria (o sabugo) para substituir um produto altamente poluente (o isopor®) por um similar biodegradável. E assim surgiu o Samis: Uso do sabugo de milho para substituição do poliestireno expandido, nome que deram ao projeto. Neste projeto desenvolvido no programa de iniciação científica vemos a ciência contribuindo para preservação do meio ambiente.
Recentemente o projeto foi premiado na 16ª Feira Brasileira de Ciências e Engenharia (Febrace), que ocorreu em março de 2018, na Universidade de São Paulo (USP), concorrendo com outros 346 finalistas.
Após seis meses de testes, levantamento de dados, produção de artigos científicos, apresentação de protótipos, os resultados foram satisfatórios. Em entrevista publicada na Agência Sistema FIEP em 09 de abril de 2018, Amanda Maloste afirma: “Diversos testes foram feitos e identificamos as melhores soluções em relação à impermeabilidade, porosidade, flamabilidade, decomposição e plasticidade. Em nosso sétimo protótipo, conseguimos resultados 100% positivos, que possibilitam a viabilização do produto e posterior aplicação no mercado. Em relação ao uso, a proposta é no transporte de materiais frágeis, artefatos de decoração ou bandejas de alimentos”, ou seja, é um substituto ao isopor® tradicional.
Em matéria publicada na página do colégio Sesi em 22 de março de 2018, Juliana Vidal, a orientadora do projeto, destaca a importância de iniciativas como esta. Para ela “atividades como essas proporcionam aos alunos uma forma de colocar em prática todo o conhecimento que adquirem no Ensino Médio, com aprofundamento científico na resolução de problemas contemporâneos”.
A Professora Juliana Regina Kloss, que assumiu a coorientação do projeto após parceria firmada com a UTFPR afirmou, em entrevista ao e-campus em 09 de novembro de 2019, que: “Muitos estudantes acham que não dão conta de entrar em uma Federal, a maioria acaba indo pro ensino privado, mas é importante mostrar que isso é possível e incentivar esses alunos a continuarem os seus estudos e também seguirem na área da pesquisa”. Projetos como este podem estimular mais jovens a acreditar em suas potencialidades.


Como cheguei a este projeto?
Durante a realização da oficina O uso de história de MULHERES no ensino fundamental – a história de Marie Curie na III Semana das Licenciaturas da UTFPR comentei sobre este blog e pedi que, caso alguma participante conhecesse algum projeto na área de ciências desenvolvido por jovens mulheres que havia conquistado visibilidade e destaque que me indicassem via e-mail. Imediatamente um grupo de participantes apontou para a mesma pessoa. Uma jovem menina/moça, sorridente, com olhos brilhantes e que se chama Amanda de Souza Maloste (por que será que ela estava ali?). Imediatamente solicitei que me encaminhasse um e-mail para que eu pudesse escrever este post e assim ela o fez. Quando recebi o texto produzido por Amanda percebi que além de uma cientista brilhante, apaixonada pelo saber, ela tem o dom da escrita. Seu texto está tão rico que resolvi publicá-lo na íntegra. Então, convido vocês a conhecer a história dessa jovem cientista brasileira contada por ela mesma!
“Eu me chamo Amanda de Souza Maloste, tenho 18 anos. Nasci em Curitiba, mas sempre morei em Campo Largo. Estudei durante todo ensino fundamental em escola pública e no ensino médio, consegui uma bolsa integral em um colégio particular (Colégio SESI Campo Largo). E foi lá que meus sonhos passaram a se tornar realidade e minha trajetória mudou para sempre.
Desde muito pequena, eu sempre fui muito sonhadora, adorava ler e escrever, sonhava em mudar o mundo, em tocar o coração das pessoas de alguma forma com a escrita e acreditei, durante muito tempo, que mudaria o mundo por publicar um livro e ajudar alguém. Mas a vida foi capaz de me mostrar que eu poderia ser capaz de mudar o mundo de outra forma. Sendo uma garota, sendo Cientista e inspirando outras garotas a brilharem na ciência. E, utilizando minha facilidade com escrita, propor ideias que mudem o mundo!
Sempre gostei muito de estudar. Eu cresci me inspirando no meu pai. Ele sempre foi uma figura na qual eu queria me espelhar, isso porque, ele definitivamente era uma das mentes mais inteligentes que eu já havia conhecido. Eu queria ser como ele. E então, ele despertou em mim a paixão pelos estudos, mas como nem tudo são flores, minha vontade de ser tão inteligente como meu pai me deixou muito vulnerável porque eu achava que minhas notas definiriam quem eu era e isso acabou despertando em mim uma Amanda insegura, que se cobrava e não parecia suficiente, que achava que ninguém iria enxerga-la por nada.
Foi então que minha história tomou um rumo totalmente diferente. Quando eu estava no segundo ano do ensino médio, eu conheci minha atual melhor amiga, a Jessica, e não sei explicar, mas eu vi algo nela brilhante e a convenci a entrar comigo na olimpíada de ciências do colégio. Foi aí que definitivamente minha história mudou.

Nessa olimpíada, nós tínhamos que desenvolver um aparato tecnológico com algum vegetal produzido em nossa região. Ao pesquisar em nosso município, descobrimos que era o milho. Mas como ela era filha de agricultor, sabíamos que o milho tinha muita funcionalidade, mas o sabugo em si não. Foi então que decidimos que íamos usá-lo para algo, e juntas, fizemos muita pesquisa em conjunto com nossa professora orientadora Juliana Vidal (de novo, uma mulher! Que timaço, né?). Escolhemos tentar criar embalagens para eletroeletrônicos para substituir o isopor®, isso porque o poliestireno expandido não era biodegradável e gerava milhares de problemas para o meio ambiente, e como o sabugo não era uma matéria utilizada e acabava por geral problemas para o agricultor, começamos a desenvolver um projeto de pesquisa baseado em resolver esses problemas.
Em junho de 2017, fizemos nosso primeiro protótipo, assim, nossa professora propôs que participássemos de feiras de ciências para alunas/os de ensino médio e nós, como duas garotas empolgadas, aceitamos!
Fomos para feira de ciências estadual, depois para nacional (na USP, onde ganhamos quarto lugar em ciências biológicas). Nessa fase, a olimpíada já tinha acabado, mas nós queríamos continuar na pesquisa porque tanto eu quanto a Jessica, tínhamos descoberto uma nova paixão: Fazer ciência. E todas as inseguranças que eu tinha sobre mim, já não existiam. Eu sabia que era capaz. E sabia que era capaz de muito, não mais pelo meu pai, mas por mim.
Então por mais que nossa ideia estivesse fluindo, ainda não era ideal para aplicar no mercado, nessa fase, estava muito difícil enxergar que conseguiríamos melhorar, porque a ideia da pesquisa era fantástica e inovadora, mas o protótipo possuía muitos problemas.
Então, em maio de 2018, começamos uma parceria com a UTFPR – campus Curitiba. Definitivamente, a melhor coisa que nos aconteceu. Começamos a trabalhar com a doutora na área de polímeros Juliana Regina Kloss (mais uma mulher, yeah!) e ela nos apresentou produtos que formavam espumas, e começamos a trabalhar nas tardes no colégio e alguns dias no laboratório da UTFPR. Ambas estávamos no ensino médio e tudo era muito cansativo, mas ainda assim, prazeroso.
Com a segunda fase do projeto, a do ano de 2018, conseguimos segundo lugar geral na feira de inovação (FIciências), onde ganhamos 2 mil reais e esse ano, realizamos nossos maiores sonhos e tivemos a maior oportunidade de nossas vidas. Fomos apresentar nosso projeto na USP novamente, na Febrace, uma feira pré-universitária para alunas/os de ensino médio e técnico, onde recebemos segundo lugar em ciências exatas e da terra, prêmio de destaque em desenvolvimento sustentável pela revista Ricco, melhor projeto paranaense e a oportunidade que mudou minha vida: Ser uma das 18 equipes escolhidas para representar o Brasil na maior feira pré-universitária do mundo, a INTEL ISEF, que tinha como avaliadores ganhadores do NOBEL! E melhor, a viagem tinha todas as despesas pagas pela USP.
Aquilo definitivamente mudou minha vida, minha forma de ver o mundo. Eu fiz uma viagem internacional por uma ideia produzida no ensino médio, eu e minha melhor amiga descobrimos o mundo juntas.
E então, eu já não era a Amanda insegura, eu era a Amanda que vestiu a camisa do país, saiu de uma cidade pequena para competir com mentes brilhantes. Uma Amanda que provou para o mundo que lugar de mulher é onde ela quiser, inclusive fazendo ciência. Fazendo ciência internacional e conhecendo o mundo pela ciência!!!!
Hoje eu digo sem medo, tudo valeu a pena até aqui. Todas as vezes que disseram que não íamos conseguir, todos os testes que deram errado e a gente teve que refazer um milhão de vezes, todas as noites sem dormir em época de vestibular porque estava escrevendo artigo científicos. Tudo valeu a pena.
Hoje, a Amanda que existe aqui dentro é eternamente grata por terem acreditado no potencial dela. E minha eterna gratidão vai ser para minhas professoras orientadoras, que sempre acreditaram em mim e na Jessica. Que sempre nos apoiaram a ser pessoas melhores.
E sem sombra de dúvidas, se hoje estou no primeiro semestre da faculdade, na UTFPR, estudando química para ser professora, é pelo que vivi no ensino médio. Hoje não posso mais participar de feiras de ciências, entretanto, minha motivação é me tornar uma professora e uma cientista tão boa que possa mudar a vida de jovens por meio da ciência, dar oportunidades àquelas/es que nunca teriam, e principalmente, fazer elas/es acreditarem em si mesmas/os, assim como eu acredito em mim hoje. Da mesma forma que a ciência me mudou, eu quero que ela mude elas/es.” (Amanda Maloste, novembro de 2019)
Como vemos, Amanda é uma cientista encantada pelo saber, curiosa e determinada que recebeu apoio de outras mulheres maravilhosas em sua trajetória até aqui. Certamente ouviremos falar muito sobre ela futuramente!
Amanda é uma menina/moça que inspira!
Mas faltou uma parte dessa história.
E a Alessandra Akemi Hashimoto Fragoso? Que fim levou? A partir da parceria com a UTFPR, Alessandra deixou o projeto. Espero que continue amando a ciência.
Quem é Jessica Burda? Quem sabe contamos a história dela em um próximo post?! Você quer conhecer Jessica? Eu quero!
Fontes:
Agência FIEP. Alunas do Colégio Sesi de Campo Largo desenvolvem material para substituir isopor. Disponível em: https://agenciafiep.com.br/2018/04/09/alunas-do-colegio-sesi-de-campo-largo-desenvolvem-material-para-substituir-isopor/. Acesso em: 09/11/2019.
Colégio Sesi. Alunas de Campo Largo conquistam quarto lugar na 16° Feira Brasileira de Ciências e Engenharias. Disponível em: http://www.sesipr.org.br/colegiosesi/alunas-de-campo-largo-conquistam-quarto-lugar-na-16-feira-brasileira-de-ciencias-e-engenharias-2-14110-364053.shtml. Acesso em: 09/11/2019.
E-campus. Campus Curitiba – SESI CAMPO LARGO: parceria conquista prêmios nacionais e internacional. Disponível em: https://ecampus.ct.utfpr.edu.br/2019/utfpr-sesi-campo-largo-uma-parceria-que-contribuiu-para-a-conquista-de-04-premios-por-alunas-do-ensino-medio/. Acesso em: 09/11/2019.
Folha de Londrina. Alunas do Paraná vão representar o Brasil em feira internacional de ciências. Disponível em: https://www.folhadelondrina.com.br/cidades/alunas-do-parana-vao-representar-o-brasil-em-feira-internacional-de-ciencias-2938494e.html. Acesso em: 09/11/2019.








