Amanda Maloste: uma menina/moça que ama e acredita na ciência

Por: Lindamir Salete Casagrande

Amanda Maloste – arquivo pessoal

O projeto Samis

O isopor® é um produto muito utilizado pela indústria brasileira. Seu uso auxilia no transporte de produtos frágeis e serve também como utensílios domésticos descartáveis. É um produto prático por ser leve, impermeável, isolante térmico e barato. Seria perfeito se não demorasse cerca de 150 anos para se decompor na natureza. Estudo realizado na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), o Brasil consome quase 37 toneladas de isopor® ao ano. Todo este material, depois de utilizado, vai para o lixo. Um grupo de estudantes de Campo Largo, região metropolitana de Curitiba, estado do Paraná, formado por três alunas e uma professora desenvolveu um estudo para produzir um substituto ao isopor® que fosse mais sustentável.

A equipe formada pelas alunas do Colégio Sesi Alessandra Akemi Hashimoto Fragoso, Amanda de Souza Maloste e Jessica Cristina Burda e pela professora de biologia Juliana de Fátima Cunha Vidal, ao participar da olimpíada interna do Sesi, foi desafiada a descobrir uma nova aplicação para algum alimento/vegetal produzido na região. Ao desenvolver a pesquisa constataram que o milho era o alimento mais cultivado na região e responsável pela produção de um grande volume de resíduos sólidos, dentre eles o sabugo de milho que era raramente reaproveitado. Com base nessa descoberta elas decidiram desenvolver um produto para reaproveitar o material desperdiçado pela indústria (o sabugo) para substituir um produto altamente poluente (o isopor®) por um similar biodegradável. E assim surgiu o Samis: Uso do sabugo de milho para substituição do poliestireno expandido, nome que deram ao projeto. Neste projeto desenvolvido no programa de iniciação científica vemos a ciência contribuindo para preservação do meio ambiente.

Recentemente o projeto foi premiado na 16ª Feira Brasileira de Ciências e Engenharia (Febrace), que ocorreu em março de 2018, na Universidade de São Paulo (USP), concorrendo com outros 346 finalistas.

Após seis meses de testes, levantamento de dados, produção de artigos científicos, apresentação de protótipos, os resultados foram satisfatórios. Em entrevista publicada na Agência Sistema FIEP em 09 de abril de 2018, Amanda Maloste afirma: “Diversos testes foram feitos e identificamos as melhores soluções em relação à impermeabilidade, porosidade, flamabilidade, decomposição e plasticidade. Em nosso sétimo protótipo, conseguimos resultados 100% positivos, que possibilitam a viabilização do produto e posterior aplicação no mercado. Em relação ao uso, a proposta é no transporte de materiais frágeis, artefatos de decoração ou bandejas de alimentos”, ou seja, é um substituto ao isopor® tradicional.

Em matéria publicada na página do colégio Sesi em 22 de março de 2018, Juliana Vidal, a orientadora do projeto, destaca a importância de iniciativas como esta. Para ela “atividades como essas proporcionam aos alunos uma forma de colocar em prática todo o conhecimento que adquirem no Ensino Médio, com aprofundamento científico na resolução de problemas contemporâneos”.

A Professora Juliana Regina Kloss, que assumiu a coorientação do projeto após parceria firmada com a UTFPR afirmou, em entrevista ao e-campus em 09 de novembro de 2019, que: “Muitos estudantes acham que não dão conta de entrar em uma Federal, a maioria acaba indo pro ensino privado, mas é importante mostrar que isso é possível e incentivar esses alunos a continuarem os seus estudos e também seguirem na área da pesquisa”. Projetos como este podem estimular mais jovens a acreditar em suas potencialidades.

Fases do protótipo-arquivo pessoal
Fase atual-arquivo pessoal

Como cheguei a este projeto?

Durante a realização da oficina O uso de história de MULHERES no ensino fundamental – a história de Marie Curie na III Semana das Licenciaturas da UTFPR comentei sobre este blog e pedi que, caso alguma participante conhecesse algum projeto na área de ciências desenvolvido por jovens mulheres que havia conquistado visibilidade e destaque que me indicassem via e-mail. Imediatamente um grupo de participantes apontou para a mesma pessoa. Uma jovem menina/moça, sorridente, com olhos brilhantes e que se chama Amanda de Souza Maloste (por que será que ela estava ali?). Imediatamente solicitei que me encaminhasse um e-mail para que eu pudesse escrever este post e assim ela o fez. Quando recebi o texto produzido por Amanda percebi que além de uma cientista brilhante, apaixonada pelo saber, ela tem o dom da escrita. Seu texto está tão rico que resolvi publicá-lo na íntegra. Então, convido vocês a conhecer a história dessa jovem cientista brasileira contada por ela mesma!

 “Eu me chamo Amanda de Souza Maloste, tenho 18 anos. Nasci em Curitiba, mas sempre morei em Campo Largo. Estudei durante todo ensino fundamental em escola pública e no ensino médio, consegui uma bolsa integral em um colégio particular (Colégio SESI Campo Largo). E foi lá que meus sonhos passaram a se tornar realidade e minha trajetória mudou para sempre.

Desde muito pequena, eu sempre fui muito sonhadora, adorava ler e escrever, sonhava em mudar o mundo, em tocar o coração das pessoas de alguma forma com a escrita e acreditei, durante muito tempo, que mudaria o mundo por publicar um livro e ajudar alguém. Mas a vida foi capaz de me mostrar que eu poderia ser capaz de mudar o mundo de outra forma. Sendo uma garota, sendo Cientista e inspirando outras garotas a brilharem na ciência. E, utilizando minha facilidade com escrita, propor ideias que mudem o mundo!

Sempre gostei muito de estudar. Eu cresci me inspirando no meu pai. Ele sempre foi uma figura na qual eu queria me espelhar, isso porque, ele definitivamente era uma das mentes mais inteligentes que eu já havia conhecido. Eu queria ser como ele. E então, ele despertou em mim a paixão pelos estudos, mas como nem tudo são flores, minha vontade de ser tão inteligente como meu pai me deixou muito vulnerável porque eu achava que minhas notas definiriam quem eu era e isso acabou despertando em mim uma Amanda insegura, que se cobrava e não parecia suficiente, que achava que ninguém iria enxerga-la por nada. 

Foi então que minha história tomou um rumo totalmente diferente. Quando eu estava no segundo ano do ensino médio, eu conheci minha atual melhor amiga, a Jessica, e não sei explicar, mas eu vi algo nela brilhante e a convenci a entrar comigo na olimpíada de ciências do colégio. Foi aí que definitivamente minha história mudou.

Jessica e Amanda – arquivo pessoal

Nessa olimpíada, nós tínhamos que desenvolver um aparato tecnológico com algum vegetal produzido em nossa região. Ao pesquisar em nosso município, descobrimos que era o milho. Mas como ela era filha de agricultor, sabíamos que o milho tinha muita funcionalidade, mas o sabugo em si não. Foi então que decidimos que íamos usá-lo para algo, e juntas, fizemos muita pesquisa em conjunto com nossa professora orientadora Juliana Vidal (de novo, uma mulher! Que timaço, né?). Escolhemos tentar criar embalagens para eletroeletrônicos para substituir o isopor®, isso porque o poliestireno expandido não era biodegradável e gerava milhares de problemas para o meio ambiente, e como o sabugo não era uma matéria utilizada e acabava por geral problemas para o agricultor, começamos a desenvolver um projeto de pesquisa baseado em resolver esses problemas.

Em junho de 2017, fizemos nosso primeiro protótipo, assim, nossa professora propôs que participássemos de feiras de ciências para alunas/os de ensino médio e nós, como duas garotas empolgadas, aceitamos! 

Fomos para feira de ciências estadual, depois para nacional (na USP, onde ganhamos quarto lugar em ciências biológicas). Nessa fase, a olimpíada já tinha acabado, mas nós queríamos continuar na pesquisa porque tanto eu quanto a Jessica, tínhamos descoberto uma nova paixão: Fazer ciência. E todas as inseguranças que eu tinha sobre mim, já não existiam. Eu sabia que era capaz. E sabia que era capaz de muito, não mais pelo meu pai, mas por mim.

Então por mais que nossa ideia estivesse fluindo, ainda não era ideal para aplicar no mercado, nessa fase, estava muito difícil enxergar que conseguiríamos melhorar, porque a ideia da pesquisa era fantástica e inovadora, mas o protótipo possuía muitos problemas.

Então, em maio de 2018, começamos uma parceria com a UTFPR – campus Curitiba. Definitivamente, a melhor coisa que nos aconteceu. Começamos a trabalhar com a doutora na área de polímeros Juliana Regina Kloss (mais uma mulher, yeah!) e ela nos apresentou produtos que formavam espumas, e começamos a trabalhar nas tardes no colégio e alguns dias no laboratório da UTFPR. Ambas estávamos no ensino médio e tudo era muito cansativo, mas ainda assim, prazeroso.

Com a segunda fase do projeto, a do ano de 2018, conseguimos segundo lugar geral na feira de inovação (FIciências), onde ganhamos 2 mil reais e esse ano, realizamos nossos maiores sonhos e tivemos a maior oportunidade de nossas vidas. Fomos apresentar nosso projeto na USP novamente, na Febrace, uma feira pré-universitária para alunas/os de ensino médio e técnico, onde recebemos segundo lugar em ciências exatas e da terra, prêmio de destaque em desenvolvimento sustentável pela revista Ricco, melhor projeto paranaense e a oportunidade que mudou minha vida: Ser uma das 18 equipes escolhidas para representar o Brasil na maior feira pré-universitária do mundo, a INTEL ISEF, que tinha como avaliadores ganhadores do NOBEL! E melhor, a viagem tinha todas as despesas pagas pela USP. 

Aquilo definitivamente mudou minha vida, minha forma de ver o mundo. Eu fiz uma viagem internacional por uma ideia produzida no ensino médio, eu e minha melhor amiga descobrimos o mundo juntas. 

E então, eu já não era a Amanda insegura, eu era a Amanda que vestiu a camisa do país, saiu de uma cidade pequena para competir com mentes brilhantes. Uma Amanda que provou para o mundo que lugar de mulher é onde ela quiser, inclusive fazendo ciência. Fazendo ciência internacional e conhecendo o mundo pela ciência!!!!

Hoje eu digo sem medo, tudo valeu a pena até aqui. Todas as vezes que disseram que não íamos conseguir, todos os testes que deram errado e a gente teve que refazer um milhão de vezes, todas as noites sem dormir em época de vestibular porque estava escrevendo artigo científicos. Tudo valeu a pena.

Hoje, a Amanda que existe aqui dentro é eternamente grata por terem acreditado no potencial dela. E minha eterna gratidão vai ser para minhas professoras orientadoras, que sempre acreditaram em mim e na Jessica. Que sempre nos apoiaram a ser pessoas melhores.

E sem sombra de dúvidas, se hoje estou no primeiro semestre da faculdade, na UTFPR, estudando química para ser professora, é pelo que vivi no ensino médio. Hoje não posso mais participar de feiras de ciências, entretanto, minha motivação é me tornar uma professora e uma cientista tão boa que possa mudar a vida de jovens por meio da ciência, dar oportunidades àquelas/es que nunca teriam, e principalmente, fazer elas/es acreditarem em si mesmas/os,  assim como eu acredito em mim hoje. Da mesma forma que a ciência me mudou, eu quero que ela mude elas/es.” (Amanda Maloste, novembro de 2019)

Como vemos, Amanda é uma cientista encantada pelo saber, curiosa e determinada que recebeu apoio de outras mulheres maravilhosas em sua trajetória até aqui. Certamente ouviremos falar muito sobre ela futuramente!

Amanda é uma menina/moça que inspira!

Mas faltou uma parte dessa história.

E a Alessandra Akemi Hashimoto Fragoso? Que fim levou? A partir da parceria com a UTFPR, Alessandra deixou o projeto. Espero que continue amando a ciência.

Quem é Jessica Burda? Quem sabe contamos a história dela em um próximo post?! Você quer conhecer Jessica? Eu quero!

Fontes:

Agência FIEP. Alunas do Colégio Sesi de Campo Largo desenvolvem material para substituir isopor. Disponível em: https://agenciafiep.com.br/2018/04/09/alunas-do-colegio-sesi-de-campo-largo-desenvolvem-material-para-substituir-isopor/. Acesso em: 09/11/2019.

Colégio Sesi. Alunas de Campo Largo conquistam quarto lugar na 16° Feira Brasileira de Ciências e Engenharias. Disponível em: http://www.sesipr.org.br/colegiosesi/alunas-de-campo-largo-conquistam-quarto-lugar-na-16-feira-brasileira-de-ciencias-e-engenharias-2-14110-364053.shtml. Acesso em: 09/11/2019.

E-campus. Campus Curitiba – SESI CAMPO LARGO: parceria conquista prêmios nacionais e internacional. Disponível em: https://ecampus.ct.utfpr.edu.br/2019/utfpr-sesi-campo-largo-uma-parceria-que-contribuiu-para-a-conquista-de-04-premios-por-alunas-do-ensino-medio/. Acesso em: 09/11/2019.

Folha de Londrina. Alunas do Paraná vão representar o Brasil em feira internacional de ciências. Disponível em: https://www.folhadelondrina.com.br/cidades/alunas-do-parana-vao-representar-o-brasil-em-feira-internacional-de-ciencias-2938494e.html. Acesso em: 09/11/2019.

Lívia Eberlin e a “Caneta” que pode salvar vidas

Por: Lindamir Salete Casagrande

Eberlin (Foto: Divulgação)
Fonte: Revista Gsalileu

Lívia Eberlin é uma cientista brasileira que desenvolveu uma “caneta” capaz de detectar células cancerosas em 10 minutos. Este artefato tecnológico, que carrega em si anos de pesquisa e muito conhecimento, auxilia os médicos e médicas durante as cirurgias para retirada de tumores de câncer.  Durante as cirurgias é impossível enxergar a olho nu se foi retirado todo o tecido doente, fato primordial para o êxito no tratamento. Antes da caneta era necessário manter um/a patologista a disposição durante as cirurgias para analisar as amostras e verificar se toda a lesão havia sido retirada. Cada análise demorava cerca de 30 a 40 minutos. Se o resultado fosse favorável, tudo certo, mas, caso o exame apontasse que ainda não tinha sido retirado todo o tumor havia necessidade de repetir o processo, às vezes, mais de uma vez. Cabe destacar que o/a paciente estava sob efeito de anestesia e isso era muito complicado. Caso a cirurgia fosse finalizada sem a total remoção das células doentes a reincidiva era (e ainda é) quase certa.  

Com a criação desta caneta, o tempo de análise cai para cerca de 10 minutos o que permite que, caso o resultado indique que ainda restam células cancerosas, a retirada seja realizada e o material submetido a novo exame. Com o uso deste artefato tecnológico pode-se preservar ao máximo o órgão acometido pela doença resultando numa melhor recuperação do/a paciente. A presença do/a patologista permanece fundamental, porém, ele/a conta com uma ferramenta a mais para tornar o trabalho mais preciso e exitoso. Como o objetivo de Livia e sua equipe era desenvolver um aparelho auxiliasse os/as médicos/as durante as cirurgias e preservasse ao máximo os tecidos saudáveis, a MasSpec Pen está sendo uma ferramenta adequada e eficaz. Em entrevista para Rodrigo de Oliveira Andrade para artigo publicado na Revista pesquisa FAPESP, edição 277/maio/2019, Lívia afirma:

“Já utilizamos em 70 pacientes e os resultados foram todos muito bons”, e complementa, “O dispositivo, ainda em fase de testes, conseguiu analisar com sucesso tecidos cancerígenos e saudáveis.”

Os estudos desenvolvidos por Livia com o intuito de criar equipamentos que facilitem e melhorem o diagnóstico de câncer estão sendo reconhecidos e ela recebeu, neste ano de 2019, “uma bolsa da Fundação MacArthur, concedida a profissionais de destaque em suas áreas de atuação” (ANDRADE, 2019, online). Ela terá a disposição de sua equipe US$ 625mil dólares pra aplicar em suas pesquisas, da forma que achar melhor, durante os próximos 5 anos. A ideia de Lívia é disseminar o uso MasSpec Pen em hospitais mundo afora.

Pesquisadores fazendo testes com a caneta que detecta câncer (Foto: The MacArthur Foundation)
Fonte: Revista Galileu

Mas, quem é esta cientista brasileira? 

Lívia é filha do também químico e professor Marcos Eberlin, responsável pelo Laboratório ThoMSon do Instituto de Química da Unicamp. Fez bacharelado em Química na Universidade de Campinas concluído em 2008. Durante a graduação foi iniciada nos estudos em espectrometria de massas pelo próprio pai. Quando estava no segundo ano da graduação decidiu estagiar, durante as férias, no Laboratório Aston da Universidade de Purdue, em Indiana, nos Estados Unidos. Com o estímulo de seu orientador de iniciação científica e intermediação de seu pai, e com isso ela pode estagiar com o professor Robert Graham Cooks com quem, posteriormente, fez seu doutoramento, iniciado em 2008, sem passar pelo mestrado. Livia destaca que o que diferencia a ciência desenvolvida no Brasil da ciência feita nos EUA é a pouca destinação de recursos às instituições de pesquisa brasileiras. Em entrevista a Luiz Sugimoto no número 599 do jornal da Unicamp, publicado em 2014, ela ressalta que:

 “O professor Cooks foi fundamental ao me dar a chance de aplicar a técnica na detecção de cânceres, mas esta conquista não seria possível sem a excelente formação que recebi na Unicamp e no Laboratório ThoMSon do IQ – foi o meu alicerce.”

 Ela poderia ter (e talvez tenha) sido acusada de conseguir fazer esta trajetória graças a influência de seu pai, o que de fato pode ter contribuído, porém em nada teria resultado se não fosse a capacidade e dedicação aos estudos e à ciência de Livia. Marcos Eberlin esclarece:

“Ser minha filha é coincidência, pois Livia passou em vigésimo lugar no vestibular da Unicamp e em primeiro na Química, tendo sido uma excelente aluna de iniciação científica. Antes de se graduar, ela quis fazer um estágio no exterior e, já conhecendo bem os nossos equipamentos e os princípios da espectrometria de massas, passou três períodos de férias trabalhando para o professor Cooks, decidindo então pelo doutorado com ele. É a segunda geração de Eberlin’s naquele laboratório da Universidade de Purdue” (SUGIMOTO, 2014, online).

No ano de 2011, após a conclusão do doutorado, ela mudou-se para a California e iniciou o pós-doutorado no Departamento de Química da Universidade Stanford e foi supervisionada pelo químico Richard Zare, tendo a oportunidade de continuar as pesquisas na mesma temática.

No ano de 2014 ela recebeu o prêmio de melhor tese de doutorado em química dos Estados Unidos da América, razão pela qual recebeu o Nobel Laureate Signature Award 2014 – prêmio desejado pelos/as pesquisadores/as da área e traz a assinatura da maioria dos/as cientistas que ganharam o prêmio Nobel de Química. Ela foi a primeira cientista brasileira (mulher e homem) a ganhar esta láurea.

Em 2016 conseguiu uma vaga de professora assistente no Departamento de Química da Universidade do Texas, em Austin, EUA. Ali ela formou sua própria equipe de pesquisadores/as e desenvolveu o projeto que resultou na produção do dispositivo MasSpec Pen sobre o qual versamos no início deste post.

Livia conta com mais de 20 premiações ao longo de sua trajetória acadêmica que pode ser considerada meteórica. Aos 32 anos já é PhD em Química e conta com sua própria equipe de pesquisa. Porém, nem tudo foram flores. Sugimoto (2014, online) destaca que “Na primeira vez em que Livia Eberlin se posicionou com seu equipamento na sala de cirurgia do hospital da Harvard Medical School, os médicos lhe dirigiram olhares céticos, como se perguntassem o que uma química fazia ali.” Mas Livia sabia muito bem o que fazia ali. Fazia ciência, fazia história.

Fontes:

CENTAMORI, Vanessa. Cientista brasileira cria caneta que detecta câncer durante cirurgias. Revista Galileu, 2019. https://revistagalileu.globo.com/Ciencia/noticia/2019/09/cientista-brasileira-cria-caneta-que-detecta-cancer-durante-cirurgias.html. Acesso em: 19/10/2019.

INCLUSÃO 360. Livia Eberlin, cientista brasileira PhD de 32 anos, ganha bolsa para ‘gênios’ nos EUA. Disponível em: https://www.inclusao360.org/mulheres/livia-eberlin-cientista-brasileira-phd-de-32-anos-ganha-bolsa-para-genios-nos-eua/.  Acesso em: 19/10/2019.

MACARTHUR FOUNDATION. Livia S. Eberlin. Disponível em: https://www.macfound.org/fellows/1008/. Acesso em: 19/10/2019.

SUGIMOTO, Luiz. Técnica pioneira rende prêmio nos EUA a graduada pela Unicamp. Jornal da Unicamp, Campina, 2019. Disponível em: https://www.unicamp.br/unicamp/ju/599/tecnica-pioneira-rende-premio-nos-eua-graduada-pela-unicamp. Acesso em: 19/10/2019.

Série Meninas, moças e mulheres que inspiram

Por: Lindamir Salete Casagrande

Contar a história de mulheres que mudaram o mundo com seus estudos, sua ciência, sua arte, sua luta, sua postura diante do mundo, de maneira lúdica e leve é o desafio a que me proponho nesta série destinada ao público jovem. As mulheres cujas histórias serão contadas, embora tenham feito grandes contribuições para a história da humanidade, não são suficientemente conhecidas pela maior parte da população. Assim, espero oferecer às crianças e aos adolescentes – e por que não aos adultos? – uma nova fonte para que possam saciar sua sede de saber, alimentar sua curiosidade, ampliar seus exemplos, construir seus sonhos, enfim, se inspirar. Esta é uma série que será escrita, ilustrada e editada por mulheres, porém destinada a todas as pessoas que amam a leitura e o conhecimento.

No dia 05 de outubro de 2019 lancei meu primeiro livro da Série “Meninas, moça e mulheres que inspiram” contando a biografia de Marie Curie. Esta é uma nova experiência que estou vivenciando e que está me dando enorme prazer, embora seja desafiadora. Adequar a linguagem acadêmica a um público não acadêmico é uma tarefa árdua, porém necessária e gratificante. Contar a história da maior cientista que o mundo já conheceu de forma a valorizar sua trajetória, suas conquistas, suas lutas, seus desafios, os tabus por ela enfrentados e superados é uma honra, porém carrega muita responsabilidade. Espero que tenha conseguido fazê-lo de forma lúdica e inspiradora. Conto com a valiosa colaboração de Vanessa Martinelli que contou a história de Marie Curie por meio das ilustrações e, com sua arte, enriqueceu a obra. Agradeço ainda a Editora Inverso na pessoa de sua presidente Cristina Jones por encarar este projeto comigo. O livro está a vendo por meio do site da Editora Inverso (www.editorainverso.com.br).

Capa do livro

Este é o primeiro livro da série. A continuidade do projeto depende da aceitação e repercussão desta obra. Já estou coletando informações por meio de pesquisa bibliográfica sobre a próxima mulher a ser biografada. Acho que será um livro lindo. A homenageada exala amor, empatia, solidariedade, cuidado, capacidade, simpatia, resiliência e por que não, teimosia (ou seria persistência). Muitas vezes precisamos ser teimosas para sermos ouvidas e ela fazia isso. Jamais desistia de seus objetivos, era forte. Acionei o botãozinho da curiosidade? Ótimo, essa era a intenção. Aguardem!

Rafaella de Bona: jovem cientista paranaense ganha prêmio internacional

Por: Lindamir Salete Casagrande

Ao pensar em um/a cientista geralmente vem a mente um homem, branco, cabelos grisalhos, um tanto pitoresco, entretanto essa imagem não condiz com a realidade encontrada nas universidades e centros de pesquisa brasileiros. Cada vez mais as mulheres adentram neste universo e, com sua inteligência, capacidade, sensibilidade, racionalidade e empatia mudam este estereótipo de cientista que foi construído ao longo dos séculos. Nos últimos anos vemos uma onda de meninas/moças/mulheres que estão se destacando com seus projetos de pesquisa que obtém destaque no cenário nacional e internacional. Este é o caso de Rafaella de Bona, jovem cientista paranaense.

Rafaella de Bona – arquivo pessoal

Ela desenvolveu o “Maria – absorvente íntimo”, um absorvente interno sustentável feito à base de fibra de banana e pensado para atender mulheres em situação de rua. Com este projeto Rafaella recebeu, no dia 20 de setembro de 2019, o “prêmio alemão ‘iF Design Talent Award’ [que] teve 9192 projetos inscritos em 2019, segundo o Centro Brasil Design” (KANIAK, G1 PR, 09/10/2019), destes 13 eram brasileiros e o projeto de Rafaella foi o único projeto brasileiro premiado neste ano.

Ela afirmou para Thais Kaniak (G1 PR, 09/10/2019) que este

“É o melhor prêmio de design que existe. Uma das coisas que mais me motivou foi dar visibilidade ao tema do projeto. Só as pessoas pararem para pensar sobre o assunto já é muito bom. É gratificante.”

Sua premiação foi na categoria estudante que, segundo ela, recebeu cerca de quatro mil inscrições das quais 52 foram selecionadas e Rafaella foi a única brasileira. “Não caiu a ficha, parecia surreal”. (KANIAK, G1 PR, 09/10/2019).

Rafaella de Bona/Divulgação

Mas quem é Rafaella de Bona? Ela é uma jovem universitária paranaense de 22 anos que fez o curso técnico em Mecânica Industrial no Instituto Federal do Paraná (IFPR), campus Curitiba e hoje é acadêmica do 3º ano do curso de Design de Produto na Universidade Federal do Paraná (UFPR), ou seja, fruto da educação pública a qual ela defende e apoia (e eu também!). Reside em Curitiba e lançou seu olhar sensível e competente para as mulheres em situação de rua. A empatia de Rafaella se manifesta quando ela afirma:

“Escolhi o design de produto como profissão para solucionar problemas através do olhar do usuário e suas necessidades e, com isso, poder ajudar o mundo.”

Viver em situação de rua é difícil para qualquer pessoa e ainda mais para as mulheres. Ali falta cidadania, dignidade, alimentação, proteção, conforto, atenção à saúde, segurança e muito mais. Além de todos os riscos que se impõe a todos/as que só tem a rua para viver ou, por razões diversas, escolhem a rua como “moradia” sobre as mulheres recai ainda o risco de estupro e de gravidez não planejada da qual elas e somente elas serão acusadas de não se cuidarem e engravidarem propositadamente. Muitas fingem loucura para espantar e afastar possíveis abusadores, porém esta estratégia nem sempre é eficaz. A vida nas ruas não é fácil nem segura.

Sabemos que nós mulheres, em situação de rua ou não, temos necessidades diferentes dos homens e uma delas diz respeito ao período menstrual. Mulheres em situação de rua também menstruam! Também precisam de atendimento médico! Também merecem cuidado e proteção! Incrível né? Não. Incrível é pensar e reconhecer que a sociedade tem negligenciado essa causa e abandonado esta parcela da população.

Rafaella, com sua empatia, sensibilidade, inteligência e capacidade olhou para estas mulheres e lançou a pergunta que a maioria de nós nunca fez. Em entrevista para Luan Galani da Gazeta do Povo (25/09/2019, online, grifos do autor) ela indagou:

“Já parou para pensar no malabarismo que as mulheres em situação de rua têm que fazer para lidar com a menstruação?”

Pergunta pertinente e urgente. Esse questionamento surgiu para ela e, ao finalizar o curso de Especialização em design – soluções de impacto no mundo que cursou no Centro Europeu paralelamente ao curso universitário, ela optou por estudar e pesquisar “sobre a ODS (Objetivo de desenvolvimento sustentável) Número 1, que é a da erradicação da pobreza. Com o lema ‘Agir local para impactar global’”. Ela reconhece que todos os professores e professoras do curso a apoiaram em seu projeto, de modo especial, os designers Mauricio Noronha, Rodrigo Brenner e Riorgior Ranger; o oceanógrafo Bruno Libardoni e a médica Andressa Gulin.

Em entrevista para Thais Kaniak do G1 PR publicada em 09/10/2019 ela destaca que

“Queria trabalhar localmente. Comecei a procurar esse problema em Curitiba. Cheguei aos moradores de rua e, então, cheguei às mulheres em situação de rua. Tem problemas que só cabem a elas”.

Foi assim que ela chegou à “Pobreza Menstrual e sabia que aquele era o tema certo para desenvolver o projeto”. Sendo assim, foi em busca de conhecimento para desenvolver o projeto que pode minimizar este problema social. Ela define o produto como “prático, higiênico e universal” e afirma que o absorvente se adapta às condições que as mulheres em situação de rua enfrentam em seu cotidiano. Cabe destacar que o projeto foi desenvolvido em apenas 4 meses.

Projeto do absorvente foi desenvolvido como trabalho de conclusão de curso
Foto: Rafaella de Bona -Arquivo pessoal

Rafaella lembra que, por enquanto o “Maria” é um projeto e que a sua produção ainda não tem prazo e nem o custo de fabricação pois este depende da quantidade de produção do absorvente. A ideia é que o produto seja adotado pelas prefeituras e distribuído gratuitamente às mulheres em situação de rua. Ela uma reunião agendada com o prefeito de Curitiba.

“Meu desejo com o Maria, é abrir os olhos da população para esse problema que muitas vezes é esquecido. Não precisam usar o meu projeto em si, mas só de pararem para pensar nas mulheres em situação de rua já está me trazendo muita alegria e satisfação.” (Rafaella, 2019)

Como podemos ver, o projeto de Rafaella alia a ciência com a preocupação com os problemas sociais. Evidencia-se em sua história um olhar sensível, solidário, emotivo, humano, amoroso características que são comumente atribuídas às mulheres no intuito de desqualificá-las, de dizer que não são aptas a desenvolver ciência. Porém, estas características só engrandecem o seu trabalho e as suas conquistas.

Rafaella de Bona é uma menina/moça/mulher que me inspira e sensibiliza. Tenha certeza que seus professores e professoras, familiares, amigos e amigas e, todas as pessoas que acreditam em um mundo menos desigual, de modo especial, nós mulheres nos orgulhamos muito de você! Sucesso sempre!

Fontes:

GALANI, Luan. Estudante brasileira cria absorvente sustentável e ganha “Oscar” do design mundial. Gazeta do povo. Disponível em: https://www.gazetadopovo.com.br/haus/design/estudante-brasileira-cria-absorvente-sustentavel-e-ganhar-oscar-do-design-mundial-2019/?fbclid=IwAR0AKNNYiEFmgcBoFCOc22BOA25-BNsGyOxsz4IfJt5P0jgwawS_WJVi0Es. Acesso em: 25/09/2019.

KANIAK,Thais. Estudante de Curitiba desenvolve projeto de absorvente sustentável para moradoras de rua e ganha prêmio internacional de design. G1 PR. Disponível em:https://g1.globo.com/pr/parana/noticia/2019/10/09/estudante-de-curitiba-desenvolve-projeto-de-absorvente-sustentavel-para-moradoras-de-rua-e-ganha-premio-internacional-de-design.ghtml?fbclid=IwAR2QMHzwJfdHUVoVuLRHN2THPucoBQxh9DFGHCnw9huSQwrVX2dEjSdPG5U. Acesso em: 09/10/2019.

Mulher, mãe e cientista

Por: Lindamir Salete Casagrande

Uma das principais dificuldades enfrentadas pelas mulheres que conciliam (ou acumulam) a maternidade e o fazer científico é participar de eventos científicos. Quem cuidará da criança? Onde deixá-la? Na cultura brasileira, cuidar das crianças ainda é uma atribuição das mulheres, então esta é uma dificuldade que se impõe quase que exclusivamente às mulheres.

Alguns/mas podem dizer que a mulher pode escolher não participar destes eventos. Esta não é uma solução. Os eventos científicos são espaços onde a troca de conhecimento ocorre com maior intensidade, são espaços para ver e ser vista/o, espaços nos quais se tem a oportunidade de dialogar com pares, de construir parcerias e de alavancar a produção do conhecimento, ou seja, não dá paras “escolher” não participar.

Cabe destacar que, na realidade brasileira, professores e professoras são cobrados/as e avaliados/as pela produtividade. Por produtividade entende-se aulas ministradas, publicação de artigos em revistas e eventos científicos, publicação de livros e capítulos de livros, editoração de revistas, orientações de mestrado e doutorado, participação em eventos científicos como ponentes ou participantes de mesas redondas e palestras, dentre outras atividades, ou seja, caso elas não participem de eventos científicos terão sua produtividade e, por consequência, sua avaliação piorada. Serão julgadas como menos capazes do que os homens.

Com o objetivo de facilitar a participação das mulheres mães nestes eventos cientistas brasileiras criaram um manifesto solicitando que os/as organizadores/as de congressos científicos incluam mães cientistas e seus bebês na programação. Essa iniciativa propiciaria a participação mais adequada das mulheres.

Veja a matéria completa no link:

https://revistagalileu.globo.com/Ciencia/noticia/2019/09/em-manifesto-brasileiras-pedem-que-eventos-cientificos-acolham-maes-e-bebes.html?fbclid=IwAR2WgPzVlyHsrdP9GRwcJm0eeYHr-L69vBSC8uxbss6wyLOC9f_8JP63Pb8

Vamos apoiar esta iniciativa.

Letícia: uma jovem inventora e cientista paranaense

Por: Lindamir Salete Casagrande

Por que uma notícia de registro de uma patente chamou minha atenção? Seria um fato corriqueiro se não tivesse sido feito por uma estudante do ensino técnico integrado ao ensino médio. Eu quis saber mais sobre esta jovem inventora e resolvi compartilhar sua história com vocês. Na minha concepção, esta é uma história inspiradora. Vamos a ela.

Letícia Felizardo de Almeida Silva, uma jovem estudante paranaense de 19 anos de idade desenvolveu, em seu trabalho de conclusão de curso (TCC) do curso Técnico em Automação Industrial integrado ao Ensino Médio, um equipamento que visa evitar a morte de crianças esquecidas pelos pais no interior de veículos. Letícia registrou patente de seu invento e se tornou a primeira estudante do curso técnico do Instituto Federal do Paraná – campus Telêmaco Borba (IFPR-TB) a fazer um registro de patente.

O alto índice de crianças que morrem, em todo o país, por serem esquecidas pelos pais ou mães no interior de veículos chamou a atenção de Letícia. Este esquecimento ocorre, na maioria das vezes, quando o pai ou a mãe mudam suas rotinas e assumem o transporte das crianças à creche em casos esporádicos, fora da rotina. Como não estão habituados/as com esta função, acabam se distraindo, ligando o piloto automático de seus cérebros e indo direto para o trabalho ou outro compromisso do cotidiano. Se a criança está dormindo, o silêncio não chama a atenção do pai ou da mãe e daí vem o esquecimento e a tragédia. O veículo fechado leva ao superaquecimento de seu interior e a falta de ar resulta na morte da criança. É algo trágico, lamentável e desesperador, mas que ocorre com certa frequência, infelizmente. O assunto surgiu para Letícia em uma conversa com os familiares e, após pesquisar sobre o assunto, resolveu desenvolver o projeto que agora resultou no registro da patente. O desenvolvimento do projeto durou um ano e meio e teve o apoio e acompanhamento de seu professor/orientador do TCC.

Letícia Felizardo de Almeida Silva

Mas quem é Leticia? 

Nascida na cidade de Telêmaco Borba, porém, residindo em Caetano Mendes, um distrito de Tibagi, no interior do Paraná, a jovem estudante é fruto da escola pública e reconhece a importância do ensino público em sua vida.

Letícia é uma jovem sonhadora. Ela afirma que seu avô desenvolveu nela o gosto pela leitura e este hábito despertou-lhe o desejo de ser escritora. Ela afirma “comecei escrever um livro para crianças, sobre um galo pintor, baseado no livro ‘A Bolsa Amarela’, de Lygia Bojunga, mas não cheguei concluí-lo.” Eu acho que ela deveria retomar a escrita do livro e publicá-lo afinal, o sonho de ser escritora ainda é possível e é compatível com os estudos na área técnica uma vez que ela afirma que pretende “seguir na área técnica do meu curso, estudando e trabalhando.”

Ela afirma que mora em um sítio. É importante destacar que a vida zona rural, na roça,  tem seus encantos como o convívio com animais e plantas, o desfrutar da natureza, a liberdade de andar descalça/o, tomar banho de chuva e de rio, porém também impõe limites como a distância da escola, a dificuldade de acesso a artefatos tecnológicos, a distância de outras pessoas de mesma idade. Esta realidade desenvolveu em Letícia o amor pelos animais, manifestado no personagem principal de seu livro, “o galo pintor” e pelo desejo de fazer veterinária que a acompanhou na infância e adolescência. Porém, ao ingressar no IFPR desenvolveu o gosto pela área industrial, área na qual desenvolveu seu projeto. Para ela, estudar no IFPR não é fácil pois, “para chegar ao colégio tenho que percorrer 45km, todos os dias. As vezes temos que fazer sacrifícios para poder ter uma boa educação”. A distância é uma dificuldade, porém não um impeditivo. Esta é a realidade de muitos/as jovens do interior do Paraná. O sacrifício de Letícia está valendo a pena, seu trabalho começa a ser reconhecido.

O apoio da família, dos/as amigos/as e dos professores/as foi e é fundamental para que ela dê continuidade em sua trajetória acadêmica. Leticia afirma: “Recebi o apoio de todos os professores do IFPR, juntamente com os meus amigos e familiares. Agradeço a Deus e a eles por toda a ajuda que recebi.” Gratidão é um sentimento que transparece na fala de Letícia, bem como, a vontade de ajudar os/as outros/as. Em suas palavras “Sempre busquei ajudar quem precisa, fazer tudo o que estivesse ao meu alcance, buscando melhorar cada dia mais e poder fazer a diferença por onde passo.” Nesta fala de Letícia percebemos a empatia e a solidariedade que transbordam em sua forma de pensar e agir e se refletem em seu TCC.

A origem de Letícia, filha de uma família de agricultores, categoria fundamental para o desenvolvimento de nossa sociedade e pouco reconhecida e valorizada em nosso País, faz com que sua trajetória tenha superado inclusive a sua própria expectativa. Isso fica evidente no trecho de seu depoimento que segue:

“Nunca imaginei que um dia chegaria onde cheguei. Não tinha condições de estudar em uma escola particular e no IFPR pude ter um ensino público e de qualidade. Cresci muito dentro dessa instituição e agradeço o apoio e as oportunidades que eles me proporcionam lá dentro. Agradeço todos os professores que me acompanharam ao longo da minha vida acadêmica, no meu crescimento e contribuíram para ele. Aos poucos venho descobrindo o meu potencial e espero que todas as meninas da minha idade nunca desistam de buscar aquilo que sonham.”

Acho que agora vocês entendem o motivo pelo qual eu quis contar essa história. Letícia é uma dessas meninas/moças/mulheres que nos fazem acreditar em um mundo melhor. Um mundo que respeite a todas as pessoas, que proporcione oportunidade de estudo e aprendizagem a todas/os.

A história de Letícia também serve para evidenciar a importância do ensino público de qualidade no desenvolvimento da potencialidade de jovens brasileiros/as das classes menos abastadas. Defender as escolas e as universidades públicas é defender o direito de Letícias, Joãos, Marias, Joaquins, Ágathas, Kauês, Jenifers, Kauãs permanecerem vivas/os e se tornarem pessoas capazes de contribuir para o desenvolvimento do País.

Empática, solidária, simpática, inteligente, proativa, persistente, sonhadora, dedicada, capaz, amável, bonita, inventiva, criativa e cientista são alguns adjetivos que se aplicam à Letícia.

Parabéns Letícia! Eu também espero que todas as meninas possam sonhar e realizar seus sonhos!

Baiana ganha prêmio da ONU

Por: Lindamir Salete Casagrande

A discussão sobre a participação das mulheres nas ciências ocorre em diversos espaços, de modo especial, nas universidades. Estudos indicam que há pouco interesse das mulheres por este campo e buscam identificar as razões para este fato. Apontam ainda, que o meio científico, especialmente nas chamadas ciências duras, é hostil às mulheres. A jovem Baiana Anna Luísa Beserra Santos de 21 anos foge a este estereótipo. Desde muito jovem (ela ainda é jovem) manifestou interesse pela carreira científica e o desejo de desenvolver uma ciência que melhorasse a vida das pessoas. Ela conseguiu! Desenvolveu o Aqualuz, equipamento que purifica a água utilizando os raios solares, recurso abundante no nordeste brasileiro. Ela é cria da universidade pública. Graduada em Biotecnologia pela Universidade Federal da Bahia, ela foi a vencedora do Prêmio Jovens Campeões da Terra da Organização das Nações Unidas (ONU) Meio Ambiente. Sua criação visa levar água potável para a população carente, ou seja, melhorar a vida das pessoas.

Hoje Anna é CEO da startup Safe Drinking Water for All (SWD) e coordena uma equipe de 10 pessoas, sendo a maioria, mulheres. Anna é uma inspiração para as jovens estudantes que podem ver na história dela a oportunidade e motivação para se inserir no universo científico, tão importante para o nosso país. A história de Anna também demonstra a importância de se valorizar e defender as universidades públicas. É ai que se desenvolve a maior parte das pesquisas de interesse social.

Mulheres nas HQ

Por: Lindamir Salete Casagrande

As mulheres tem se inserido nas mais diversas profissões, porém algumas carreiras ainda se constituem em redutos masculinos. Isso se dá pela baixa presença de mulheres nestas profissões. Este é um fato e não se pode negar. Entretanto, podemos nos questionar as razões pelas quais elas não se “interessam” por tais profissões é fundamental. Estas razões são múltiplas em vão desde a falta de estímulo de familiares, amigos/as, professores/as, passa pela falta de exemplos a serem seguidos e chega ao machismo que impera em determinadas profissões e segmentos da sociedade. O machismo se manifesta por meio de piadas machistas, falta de credibilidade e confiança na capacidade delas, apropriação das ideias de mulheres, silenciamento de suas vozes, interrupção de suas falas, dentre outras formas de preconceito e discriminação.

O mundo HQ (história em quadrinhos) é um destes redutos em que os homens são a grande maioria, porém, esta história está mudando. O 31º Troféu HQmix ocorrido no último domingo, dia 15 de setembro de 2019, em São Paulo, premiou mulheres em diversas categorias. Essa foi uma edição histórica pois as mulheres jamais haviam sido tão premiadas. Ao subir ao palco para receber seus troféus, levaram consigo o discurso feminista, que clama pelo reconhecimento de sua capacidade de atuar e falar sobre os mais diversos temas. Estre discurso empoderado evidencia que elas estão cientes e dispostas a lutar contra o machismo e toda a forma de preconceito, a conquistar cada vez mais espaço neste campo da cultura nacional.

Mulheres foram premiadas nas seguintes categorias:

Novo Talento Roteirista (Me Leve Quando Sair – Jéssica Groke)

Colorista Nacional (Desafiadores do Destino – Mariane Gusmão)

Livro Teórico (Tradução de Histórias em Quadrinhos – Carol Pimentel)

Novo Talento Desenhista (Saudade – Melissa Garabelli)

Quadrinho Independente (Histórias Tristes e Piadas Ruins – Laura Athayde)

Publicação Independente em Grupo (Orixás – Germana Viana, Alex Mir e Laudo Ferreira Jr.)

Tese de Doutorado (A Escola no Túnel do Tempo: Imaginários Sociodiscursivos e Efeitos de Sentido em Charges Contemporâneas sobre a Educação de Ontem e de Hoje – Eveleine Coelho Cardoso) 

Publicação Mix (Gibi de Menininha: Histórias de Terror e Putaria – Ana Recalde, Camila Torrano, Camila Suzuki, Carol Pimentel, Clarice França, Fabiana Signorini, Germana Viana, Katia Schittine, Mari Santtos, Milena Azevedo, Renata C B Lzz, Roberta Cirne e Talessak.

Parabéns mulheres talentosas e que não fogem a luta!