Por: Lindamir Salete Casagrande

Muitos ainda acreditam que as mulheres não têm capacidade, habilidade, interesse, disponibilidade para se dedicar a carreira científica. Esta crendice infundada sofreu um duro golpe neste último final de semana. Enquanto a maioria das pessoas brincavam o carnaval nas ruas ou descansavam em locais paradisíaco (inclusive eu!), um grupo de cientistas brasileiros liderados por duas mulheres, uma mais experiente (alguns chamariam de velha, fora de mercado) e outra jovem pós-doutoranda negra (inexperiente? Não!) trabalhavam arduamente para sequenciar o genoma do coronavírus, recém chegado ao Brasil, em tempo recorde nos laboratórios de duas instituições públicas, a USP e a FIOCRUZ.

Os/as cientistas, professores/as e funcionários/as públicos brasileiros têm sido covardemente atacados por setores conservadores de ultradireita do país. Acusados de maconheiros, vagabundos, responsáveis pela destruição do país, eles são lembrados e cobrados quando surge uma nova doença em escala nacional e internacional e dão respostas positivas como foi ocorrido neste final de semana, mesmo poucos recursos financeiros e de apoio. O vírus do primeiro paciente confirmado com a doença teve seu genoma sequenciado em 48 horas e o do segundo paciente em 24 h. Destaca-se que a Itália, país de onde foram importados os vírus, ainda não conseguiu fazer este sequenciamento (03/03/2020).

O episódio evidencia a relevância de se investir e defender as universidades e a ciência brasileira, bem como o SUS (todos precisamos dele!). No ano de 2010, 67,5% do total de cientistas brasileiros atuavam nas universidades. Dentre as instituições de ensino mais produtivas do Brasil as universidades públicas se destacam, daí a importância de defendê-las. Nós precisamos delas, para estudar, para desenvolver ciência que poderá solucionar problemas que nós mesmos criamos.

Sendo assim, é fundamental dar visibilidade às pessoas que dedicam suas vidas ao fazer científico e este blog tem por objetivo dar visibilidade às mulheres que tem como objetivo de vida desenvolver ações em prol do bem comum. Sendo assim, vou fazer uma singela homenagem por meio deste post às duas mulheres que lideraram os trabalhos de sequenciamento do genoma deste vírus que assombra a população mundial. São elas Ester Cerdeira Sabino, diretora do Instituto de Medicina Tropical (IMT) da USP e Jaqueline Goes de Jesus, pós-doutoranda na Faculdade de Medicina da USP e bolsista da agência de fomento Fapesp. Vamos conhecer um pouco mais sobre elas?

Profa. Dra. Ester Sabino

Ester Cerqueira Sabino
Fonte: site da Revista Claudia

Ester formou-se em medicina no ano de 1984 pela Universidade de São Paulo – USP e concluiu seu doutorado em Imunologia pela USP no ano de 1994. Atualmente é professora Associada do Departamento de Moléstias Infecciosas da Faculdade de Medicina da USP e Diretora do Instituto de Medicina Tropical da USP desde 2015. Investigadora principal dos programas do NIH “Recipient Epidemiology and Donor Evaluation Study-IV pediatric” e do “São Paulo- Minas Gerais Neglected Tropical Disease Research Center for Biomarker Discovery”. Coordenadora do projeto PITE FAPESP “A translational study for the identification, characterization and validation of severity biomarkers in arboviral infections” e do projeto FAPESP/MRC ” The Brazil-UK Centre for Arbovirus Discovery, Diagnosis, Genomics and Epidemiology (CADDE)”. Seus estudos são desenvolvidos principalmente nas áreas de segurança transfusional, HIV, doença de Chagas, arboviroses e anemia falciforme (Currículo Lattes).

Ester é fruto de uma universidade pública na qual obteve a sua formação acadêmica, bem como, desenvolveu sua vida profissional, devolvendo à sociedade o investimento que possibilitou seu desenvolvimento profissional.

Como coordenadora do Centro Conjunto Brasil-Reino Unido para Descoberta, Diagnóstico, Genômica e Epidemiologia de Arbovírus (Cadde), entidade dedicada ao estudo em tempo real epidemias de arboviroses, como Dengue e Zika que assombram o país e é um desafio para a sociedade brasileira, ela argumenta que o objetivo do trabalho desenvolvido no Cadde “é produzir respostas que ajudem os serviços de saúde em testes diagnósticos e no desenvolvimento de vacinas.” (PAIVA, 2020, online) Sabemos que a Dengue e a Zika são doenças que assolam o país e atingem, de modo especial, as populações mais carentes. O paraná vive, neste verão, uma epidemia de Dengue que reflete a falta de compromisso da população e dos governos no combate ao mosquito causador deste mal. Pesquisas que visem minimizar os impactos destas doenças como as desenvolvidas no Cadde são fundamentais e merecem todo o apoio.

Ester, ao observar os primeiros casos de COVID-19 originados na China e que se espalhavam mundo afora, juntamente com sua equipe, “treinou pesquisadores para usar uma tecnologia de sequenciamento conhecida como MinION, que já é usado para monitorar a evolução do vírus Zika nas Américas.” (PAIVA, 2020, online) 

Sendo assim, com a experiencia acumulada nos estudos sobre outros vírus e o treinamento realizado previamente, a equipe conseguiu sequenciar o genoma do Coronavírus em apenas 48 horas. Ester afirmou, em entrevista para Letícia Paiva, da revista Claudia que:

“Ao sequenciá-lo, ficamos mais perto de saber a origem da epidemia. Sabemos que o único caso confirmado no Brasil veio da Itália, contudo, os italianos ainda não sabem a origem do surto, pois ainda não fizeram o sequenciamento de suas amostras. Não têm ideia de quem é o paciente zero e não sabem se ele veio diretamente da China ou passou por outro país antes.”

Dona de um currículo invejável, Ester assina 247 artigos publicados em revistas nacionais e internacionais, além de 15 capítulos de livros sobre medicina.

Sem dúvidas é uma mulher cientista inspiradora!

Dra. Jaqueline Goes de Jesus

Jaqueline Goes de Jesus
Fonte: Site da Revista Claudia

Jaqueline  graduou-se em Biomedicina pela Escola Bahiana de Medicina e Saúde Pública no ano de 2012, concluiu o mestrado em Biotecnologia em Saúde e Medicina Investigativa (PgBSMI) pelo Instituto de Pesquisas Gonçalo Moniz – Fundação Oswaldo Cruz (IGM-FIOCRUZ) no ano de 2014 e o doutorado em Patologia Humana e Experimental pela Universidade Federal da Bahia em 2019. Desenvolveu atividades de pesquisa no Laboratório de Biologia Molecular na Fundação Hemocentro de Ribeirão Preto (FUNDHERP) e no Laboratório de Biologia Celular e Molecular do Câncer da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto – Universidade de São Paulo (FMRP-USP). Desenvolve pesquisas na área das arboviroses emergentes ZIKV, DENV, CHIKV, YFV, ORV e MAYV. Integra o ZIBRA Consortium e participa do ZIBRA project – Zika in Brazil Real Time Analisys (http://www.zibraproject.org/), projeto itinerante de mapeamento genômico do vírus Zika no Brasil. Realizou estágio de doutoramento sanduíche na Universidade de Birmingham, Inglaterra, desenvolvendo e aprimorando protocolos de sequenciamento de genomas completos pela tecnologia de nanoporos dos vírus Zika, HIV, além de protocolos para sequenciamento direto do RNA. Atualmente desenvolve pesquisas como bolsista FAPESP, em nível de pós-doutorado, no Instituto de Medicina Tropical de São Paulo – Universidade de São Paulo (IMT-USP), no âmbito do CADDE – Brazil-UK Centre for Arbovirus Discovery, Diagnosis, Genomics and Epidemiology (http://caddecentre.org). (Currículo Lattes)

Com base no breve currículo exposto acima percebe-se que Jaqueline é uma mulher negra que dedicou sua vida aos estudos sobre vírus e doenças que acometem a população sem distinção de cor, raça, classe social, orientação sexual. Sua formação, realizada integralmente em universidades públicas, a qualificou para coordenar e conduzir os trabalhos para o sequenciamento do genoma do coronavírus no Brasil. Jaqueline, ao desenvolver suas pesquisas voltadas a entender os vírus que causam doenças que atingem e afligem a população brasileira, devolve a sociedade o investimento público em sua formação. Sua trajetória evidencia a relevância de se investir e defender as universidades públicas. É nelas que se forma as/os pesquisadoras/es que fazem as pesquisas que podem beneficiar a população.

Jaqueline ainda é uma cientista em formação, estando no início de sua carreira tem a oportunidade de desenvolver suas pesquisas por meio do pós-doutorado financiado pela Fapesp. Ela é uma mulher da qual vamos ouvir falar muito. Apesar se sua pouca idade já conseguiu registrar seu nome dentre as maiores cientistas do Brasil.

Em seu perfil no Instagram, Jaqueline agradece o carinho e apoio recebido e afirma
“Muito obrigada pelo carinho que tenho recebido de todos vocês: familiares, amigos e pessoas que ainda não conheço. Mas não poderia deixar de enfatizar que não estou sozinha nessa jornada. Tudo é fruto do trabalho incansável de uma equipe extremamente dedicada da qual faço parte.”

Ao reconhecer e enaltecer a importância de toda a equipe na obtenção do resultado, Jaqueline deixa transparecer que além de uma grande cientista, é um ser humano que preza pelo respeito e o trabalho em equipe. Não seria nada de mais se o ocultamento da contribuição da equipe não fosse tão frequente no meio científico, principalmente, das mulheres cientistas.

Jaqueline é uma jovem mulher negra que inspira!

Os demais pesquisadores/as que contribuíram para levar essa missão a cabo são:

Dr. Claudio Tavares Sacchi, responsável pelo Laboratório Estratégico do Instituto Adolfo Lutz;

Dr. Nuno Faria, Dr. Oliver Pybus;

Dra. Sarah Hill;

Doutorando Darlan Candido, da Universidade de Oxford;

Dr. Joshua Quick e Dr. Nicholas Loman, da Universidade de Birmingham;

Mestre Filipe Romero, da UFRJ;

Mestre Pâmela Andrade;

As estudantes Mariana Cardoso e Camila Maia;

A bióloga Thais Coletti;

A farmacêutica Erika Manuli;

As biomédicas Ingra Morales e Flavia Sales.

Fontes:

MELO, Rafael.  Cientistas brasileiras são as mais rápidas no mundo a sequenciar o coronavírus. Disponível em: https://razoesparaacreditar.com/brasileiras-sequenciamento-genoma-coronavirus/?fbclid=IwAR0IxN6iWdw6YHrOyV0soirFb3J7DvL4mbWQJV47BGWPk0UfEJDdhdtJqx4. Acesso em: 03/03/2020.

PAIVA, Letícia. As brasileiras que sequenciaram o genoma do coronavírus. Disponível em: https://claudia.abril.com.br/sua-vida/as-brasileiras-que-sequenciaram-o-genoma-do-coronavirus/. Acesso em: 03/03/2020.

PLATAFORMA LATTES. Ester Cerdeira Sabino. Disponível em: http://lattes.cnpq.br/8590492866942091. Acesso em: 03/03/2020;

PLATAFORMA LATTES. Jaqueline Goes de Jesus. Disponível em: http://lattes.cnpq.br/5852030355340056. Acesso em: 03/03/2020.

Deixe um comentário

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.