Por: Lindamir Salete Casagrande

Ao pensar em um/a cientista geralmente vem a mente um homem, branco, cabelos grisalhos, um tanto pitoresco, entretanto essa imagem não condiz com a realidade encontrada nas universidades e centros de pesquisa brasileiros. Cada vez mais as mulheres adentram neste universo e, com sua inteligência, capacidade, sensibilidade, racionalidade e empatia mudam este estereótipo de cientista que foi construído ao longo dos séculos. Nos últimos anos vemos uma onda de meninas/moças/mulheres que estão se destacando com seus projetos de pesquisa que obtém destaque no cenário nacional e internacional. Este é o caso de Rafaella de Bona, jovem cientista paranaense.

Rafaella de Bona – arquivo pessoal

Ela desenvolveu o “Maria – absorvente íntimo”, um absorvente interno sustentável feito à base de fibra de banana e pensado para atender mulheres em situação de rua. Com este projeto Rafaella recebeu, no dia 20 de setembro de 2019, o “prêmio alemão ‘iF Design Talent Award’ [que] teve 9192 projetos inscritos em 2019, segundo o Centro Brasil Design” (KANIAK, G1 PR, 09/10/2019), destes 13 eram brasileiros e o projeto de Rafaella foi o único projeto brasileiro premiado neste ano.

Ela afirmou para Thais Kaniak (G1 PR, 09/10/2019) que este

“É o melhor prêmio de design que existe. Uma das coisas que mais me motivou foi dar visibilidade ao tema do projeto. Só as pessoas pararem para pensar sobre o assunto já é muito bom. É gratificante.”

Sua premiação foi na categoria estudante que, segundo ela, recebeu cerca de quatro mil inscrições das quais 52 foram selecionadas e Rafaella foi a única brasileira. “Não caiu a ficha, parecia surreal”. (KANIAK, G1 PR, 09/10/2019).

Rafaella de Bona/Divulgação

Mas quem é Rafaella de Bona? Ela é uma jovem universitária paranaense de 22 anos que fez o curso técnico em Mecânica Industrial no Instituto Federal do Paraná (IFPR), campus Curitiba e hoje é acadêmica do 3º ano do curso de Design de Produto na Universidade Federal do Paraná (UFPR), ou seja, fruto da educação pública a qual ela defende e apoia (e eu também!). Reside em Curitiba e lançou seu olhar sensível e competente para as mulheres em situação de rua. A empatia de Rafaella se manifesta quando ela afirma:

“Escolhi o design de produto como profissão para solucionar problemas através do olhar do usuário e suas necessidades e, com isso, poder ajudar o mundo.”

Viver em situação de rua é difícil para qualquer pessoa e ainda mais para as mulheres. Ali falta cidadania, dignidade, alimentação, proteção, conforto, atenção à saúde, segurança e muito mais. Além de todos os riscos que se impõe a todos/as que só tem a rua para viver ou, por razões diversas, escolhem a rua como “moradia” sobre as mulheres recai ainda o risco de estupro e de gravidez não planejada da qual elas e somente elas serão acusadas de não se cuidarem e engravidarem propositadamente. Muitas fingem loucura para espantar e afastar possíveis abusadores, porém esta estratégia nem sempre é eficaz. A vida nas ruas não é fácil nem segura.

Sabemos que nós mulheres, em situação de rua ou não, temos necessidades diferentes dos homens e uma delas diz respeito ao período menstrual. Mulheres em situação de rua também menstruam! Também precisam de atendimento médico! Também merecem cuidado e proteção! Incrível né? Não. Incrível é pensar e reconhecer que a sociedade tem negligenciado essa causa e abandonado esta parcela da população.

Rafaella, com sua empatia, sensibilidade, inteligência e capacidade olhou para estas mulheres e lançou a pergunta que a maioria de nós nunca fez. Em entrevista para Luan Galani da Gazeta do Povo (25/09/2019, online, grifos do autor) ela indagou:

“Já parou para pensar no malabarismo que as mulheres em situação de rua têm que fazer para lidar com a menstruação?”

Pergunta pertinente e urgente. Esse questionamento surgiu para ela e, ao finalizar o curso de Especialização em design – soluções de impacto no mundo que cursou no Centro Europeu paralelamente ao curso universitário, ela optou por estudar e pesquisar “sobre a ODS (Objetivo de desenvolvimento sustentável) Número 1, que é a da erradicação da pobreza. Com o lema ‘Agir local para impactar global’”. Ela reconhece que todos os professores e professoras do curso a apoiaram em seu projeto, de modo especial, os designers Mauricio Noronha, Rodrigo Brenner e Riorgior Ranger; o oceanógrafo Bruno Libardoni e a médica Andressa Gulin.

Em entrevista para Thais Kaniak do G1 PR publicada em 09/10/2019 ela destaca que

“Queria trabalhar localmente. Comecei a procurar esse problema em Curitiba. Cheguei aos moradores de rua e, então, cheguei às mulheres em situação de rua. Tem problemas que só cabem a elas”.

Foi assim que ela chegou à “Pobreza Menstrual e sabia que aquele era o tema certo para desenvolver o projeto”. Sendo assim, foi em busca de conhecimento para desenvolver o projeto que pode minimizar este problema social. Ela define o produto como “prático, higiênico e universal” e afirma que o absorvente se adapta às condições que as mulheres em situação de rua enfrentam em seu cotidiano. Cabe destacar que o projeto foi desenvolvido em apenas 4 meses.

Projeto do absorvente foi desenvolvido como trabalho de conclusão de curso
Foto: Rafaella de Bona -Arquivo pessoal

Rafaella lembra que, por enquanto o “Maria” é um projeto e que a sua produção ainda não tem prazo e nem o custo de fabricação pois este depende da quantidade de produção do absorvente. A ideia é que o produto seja adotado pelas prefeituras e distribuído gratuitamente às mulheres em situação de rua. Ela uma reunião agendada com o prefeito de Curitiba.

“Meu desejo com o Maria, é abrir os olhos da população para esse problema que muitas vezes é esquecido. Não precisam usar o meu projeto em si, mas só de pararem para pensar nas mulheres em situação de rua já está me trazendo muita alegria e satisfação.” (Rafaella, 2019)

Como podemos ver, o projeto de Rafaella alia a ciência com a preocupação com os problemas sociais. Evidencia-se em sua história um olhar sensível, solidário, emotivo, humano, amoroso características que são comumente atribuídas às mulheres no intuito de desqualificá-las, de dizer que não são aptas a desenvolver ciência. Porém, estas características só engrandecem o seu trabalho e as suas conquistas.

Rafaella de Bona é uma menina/moça/mulher que me inspira e sensibiliza. Tenha certeza que seus professores e professoras, familiares, amigos e amigas e, todas as pessoas que acreditam em um mundo menos desigual, de modo especial, nós mulheres nos orgulhamos muito de você! Sucesso sempre!

Fontes:

GALANI, Luan. Estudante brasileira cria absorvente sustentável e ganha “Oscar” do design mundial. Gazeta do povo. Disponível em: https://www.gazetadopovo.com.br/haus/design/estudante-brasileira-cria-absorvente-sustentavel-e-ganhar-oscar-do-design-mundial-2019/?fbclid=IwAR0AKNNYiEFmgcBoFCOc22BOA25-BNsGyOxsz4IfJt5P0jgwawS_WJVi0Es. Acesso em: 25/09/2019.

KANIAK,Thais. Estudante de Curitiba desenvolve projeto de absorvente sustentável para moradoras de rua e ganha prêmio internacional de design. G1 PR. Disponível em:https://g1.globo.com/pr/parana/noticia/2019/10/09/estudante-de-curitiba-desenvolve-projeto-de-absorvente-sustentavel-para-moradoras-de-rua-e-ganha-premio-internacional-de-design.ghtml?fbclid=IwAR2QMHzwJfdHUVoVuLRHN2THPucoBQxh9DFGHCnw9huSQwrVX2dEjSdPG5U. Acesso em: 09/10/2019.

2 comentários sobre “Rafaella de Bona: jovem cientista paranaense ganha prêmio internacional

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