Por: Lindamir Salete Casagrande

Por que uma notícia de registro de uma patente chamou minha atenção? Seria um fato corriqueiro se não tivesse sido feito por uma estudante do ensino técnico integrado ao ensino médio. Eu quis saber mais sobre esta jovem inventora e resolvi compartilhar sua história com vocês. Na minha concepção, esta é uma história inspiradora. Vamos a ela.

Letícia Felizardo de Almeida Silva, uma jovem estudante paranaense de 19 anos de idade desenvolveu, em seu trabalho de conclusão de curso (TCC) do curso Técnico em Automação Industrial integrado ao Ensino Médio, um equipamento que visa evitar a morte de crianças esquecidas pelos pais no interior de veículos. Letícia registrou patente de seu invento e se tornou a primeira estudante do curso técnico do Instituto Federal do Paraná – campus Telêmaco Borba (IFPR-TB) a fazer um registro de patente.

O alto índice de crianças que morrem, em todo o país, por serem esquecidas pelos pais ou mães no interior de veículos chamou a atenção de Letícia. Este esquecimento ocorre, na maioria das vezes, quando o pai ou a mãe mudam suas rotinas e assumem o transporte das crianças à creche em casos esporádicos, fora da rotina. Como não estão habituados/as com esta função, acabam se distraindo, ligando o piloto automático de seus cérebros e indo direto para o trabalho ou outro compromisso do cotidiano. Se a criança está dormindo, o silêncio não chama a atenção do pai ou da mãe e daí vem o esquecimento e a tragédia. O veículo fechado leva ao superaquecimento de seu interior e a falta de ar resulta na morte da criança. É algo trágico, lamentável e desesperador, mas que ocorre com certa frequência, infelizmente. O assunto surgiu para Letícia em uma conversa com os familiares e, após pesquisar sobre o assunto, resolveu desenvolver o projeto que agora resultou no registro da patente. O desenvolvimento do projeto durou um ano e meio e teve o apoio e acompanhamento de seu professor/orientador do TCC.

Letícia Felizardo de Almeida Silva

Mas quem é Leticia? 

Nascida na cidade de Telêmaco Borba, porém, residindo em Caetano Mendes, um distrito de Tibagi, no interior do Paraná, a jovem estudante é fruto da escola pública e reconhece a importância do ensino público em sua vida.

Letícia é uma jovem sonhadora. Ela afirma que seu avô desenvolveu nela o gosto pela leitura e este hábito despertou-lhe o desejo de ser escritora. Ela afirma “comecei escrever um livro para crianças, sobre um galo pintor, baseado no livro ‘A Bolsa Amarela’, de Lygia Bojunga, mas não cheguei concluí-lo.” Eu acho que ela deveria retomar a escrita do livro e publicá-lo afinal, o sonho de ser escritora ainda é possível e é compatível com os estudos na área técnica uma vez que ela afirma que pretende “seguir na área técnica do meu curso, estudando e trabalhando.”

Ela afirma que mora em um sítio. É importante destacar que a vida zona rural, na roça,  tem seus encantos como o convívio com animais e plantas, o desfrutar da natureza, a liberdade de andar descalça/o, tomar banho de chuva e de rio, porém também impõe limites como a distância da escola, a dificuldade de acesso a artefatos tecnológicos, a distância de outras pessoas de mesma idade. Esta realidade desenvolveu em Letícia o amor pelos animais, manifestado no personagem principal de seu livro, “o galo pintor” e pelo desejo de fazer veterinária que a acompanhou na infância e adolescência. Porém, ao ingressar no IFPR desenvolveu o gosto pela área industrial, área na qual desenvolveu seu projeto. Para ela, estudar no IFPR não é fácil pois, “para chegar ao colégio tenho que percorrer 45km, todos os dias. As vezes temos que fazer sacrifícios para poder ter uma boa educação”. A distância é uma dificuldade, porém não um impeditivo. Esta é a realidade de muitos/as jovens do interior do Paraná. O sacrifício de Letícia está valendo a pena, seu trabalho começa a ser reconhecido.

O apoio da família, dos/as amigos/as e dos professores/as foi e é fundamental para que ela dê continuidade em sua trajetória acadêmica. Leticia afirma: “Recebi o apoio de todos os professores do IFPR, juntamente com os meus amigos e familiares. Agradeço a Deus e a eles por toda a ajuda que recebi.” Gratidão é um sentimento que transparece na fala de Letícia, bem como, a vontade de ajudar os/as outros/as. Em suas palavras “Sempre busquei ajudar quem precisa, fazer tudo o que estivesse ao meu alcance, buscando melhorar cada dia mais e poder fazer a diferença por onde passo.” Nesta fala de Letícia percebemos a empatia e a solidariedade que transbordam em sua forma de pensar e agir e se refletem em seu TCC.

A origem de Letícia, filha de uma família de agricultores, categoria fundamental para o desenvolvimento de nossa sociedade e pouco reconhecida e valorizada em nosso País, faz com que sua trajetória tenha superado inclusive a sua própria expectativa. Isso fica evidente no trecho de seu depoimento que segue:

“Nunca imaginei que um dia chegaria onde cheguei. Não tinha condições de estudar em uma escola particular e no IFPR pude ter um ensino público e de qualidade. Cresci muito dentro dessa instituição e agradeço o apoio e as oportunidades que eles me proporcionam lá dentro. Agradeço todos os professores que me acompanharam ao longo da minha vida acadêmica, no meu crescimento e contribuíram para ele. Aos poucos venho descobrindo o meu potencial e espero que todas as meninas da minha idade nunca desistam de buscar aquilo que sonham.”

Acho que agora vocês entendem o motivo pelo qual eu quis contar essa história. Letícia é uma dessas meninas/moças/mulheres que nos fazem acreditar em um mundo melhor. Um mundo que respeite a todas as pessoas, que proporcione oportunidade de estudo e aprendizagem a todas/os.

A história de Letícia também serve para evidenciar a importância do ensino público de qualidade no desenvolvimento da potencialidade de jovens brasileiros/as das classes menos abastadas. Defender as escolas e as universidades públicas é defender o direito de Letícias, Joãos, Marias, Joaquins, Ágathas, Kauês, Jenifers, Kauãs permanecerem vivas/os e se tornarem pessoas capazes de contribuir para o desenvolvimento do País.

Empática, solidária, simpática, inteligente, proativa, persistente, sonhadora, dedicada, capaz, amável, bonita, inventiva, criativa e cientista são alguns adjetivos que se aplicam à Letícia.

Parabéns Letícia! Eu também espero que todas as meninas possam sonhar e realizar seus sonhos!

2 comentários sobre “Letícia: uma jovem inventora e cientista paranaense

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