2020: um ano para ser esquecido, porém, inesquecível

Por: Lindamir Salete Casagrande

A autora

Quando brindávamos a chegada do novo ano, sequer podíamos supor o que aconteceria no ano de 2020. Com o raiar de um novo ciclo, muitos planos são renovados, expectativas, sonhos e promessas são revelados. O sorriso e a alegria são elementos presentes nesses momentos. Juntamos amigos/as e familiares para agradecer o ano que passou e brindar o vindouro.

No dia 31 de dezembro de 2019 não foi diferente, entretanto, 2020 chegou e trouxe consigo um vírus tão pequenino que sequer pode ser classificado como ser vivo e mudou tudo. Da noite para o dia, tivemos que nos recolher e refugiar em nossas casas (que bom que temos casa!). Perdemos o direito de ir e vir, de encontrar as pessoas, de abraçar, de sorrir livremente. As máscaras passaram a ser as peças do vestuário mais importantes, porém elas escondem nossos sorrisos que também perderam muitas das razões de existir. Estamos sorrindo menos, e quando o fazemos, vem um remorso por lembrarmos das famílias que perderam seus entes queridos e não tem motivos para sorrir.

O ano de 2020 foi um ano de muitas perdas. Quase 200 mil mortos no Brasil em decorrência da covid19, doença causada pelo coronavírus, causador da pandemia que assolou o mundo. Quase 200 mil famílias destroçadas por uma doença totalmente fora de controle e tão ignorada por autoridades nacionais e por uma parcela da população.

Outra grande perda foi a crença na humanidade destas pessoas que se recusam a usar máscara, a evitar aglomeração, a ouvir as orientações dadas pelas autoridades científicas e médicas nacionais e mundiais. É difícil ver humanidade nessas pessoas.

Outra característica deste ano foi o aprendizado que ele nos obrigou a construir. Neste ano aprendemos que nossa casa é o nosso refúgio (como eu amo meu cantinho!); que ficar longe é uma forma de demonstrar amor (quanta saudade eu senti e sinto!); que sentimos muita falta do abraço, do afago; que professoras/es são fundamentais para o desenvolvimento das crianças e para a liberdade para trabalhar dos familiares; que universidades não são um antro de balbúrdia e de desocupados (quanta pesquisa foi realizada nas universidades!); que precisamos muito da ciência e dos/as cientistas (Vacina! Vacina! Vacina!); ah o SUS! Que bom que temos o SUS. Quantas vidas ele salvou! Quantos/as profissionais da saúde perderam a vida para salvar as vidas de outros/as!

Neste ano tão sombrio tivemos que nos reinventar, encontrar novas formas de exercer as atividades cotidianas e inventar ou descobrir habilidades que não sabíamos que tínhamos. Durante a pandemia muitas pessoas descobriram onde ficava a cozinha de suas casas (tem um pouquinho de exagero aqui!) e se descobriram com habilidades culinárias jamais supostas. Outros/as encontraram na culinária uma fonte de renda para manter a família. Enfim, se descobriram.

Card de divulgação da última live do ano by Letícia Rodrigues

E as lives? Foram uma excelente iniciativa e levaram arte e conhecimento às redes sociais. O Ary Fontoura virou o muso da internet (adoro os vídeos dele!) e a Marilia Mendonça produziu a live mais vista do ano (foi muita gente assistindo, mesmo!).  Até eu me descobri uma scientific influencer (acho que estou cunhando este termo. Será?). O projeto “Conversando sobre” conduzindo pelo Michel Alves Ferreira e por mim produziu 80 conversas muito bacanas com pessoas que além de muito conhecimento, compartilharam conosco suas histórias e muito afeto. O projeto se tornou uma janela para o mundo (ousada!) e permitiu conhecer muitas histórias e recebermos muito carinho de todas as pessoas que conversaram conosco e das que nos assistiram ao vivo ou viram os vídeos depois. Adoramos a experiência e já estou com saudades. Quero agradecer a Letícia Rodrigues que fez os lindíssimos cards de divulgação das lives.

Capa do livro

Eu também me descobri escritora, ou melhor, contadora de histórias. Em 2020 publiquei três livros muito bacanas. No dia 08 de março lancei o segundo volume da série Meninas, moças e mulheres que inspiram. Este livro conta a história da médica catarinense que adotou o Paraná como seu lugar para viver, Zilda Arns (Ela é paranaense. Pronto falei!). O livro intitulado Zilda Arns: a tipsi que amava as crianças traz a trajetória desta mulher incrível desde a infância até sua morte no terremoto que assolou o Haiti onde ela fazia o que mais gostava. Semeava o amor e o compartilhava o conhecimento. Zilda entendeu como ninguém os ensinamentos de Cristo e semeou amor por onde andou. Quem me ajudou a contar essa história por meio das ilustrações foi a talentosíssima Lucy Ana Soares Camelo Casagrande que também é minha cunhada e estreou como ilustradora neste livro. Obrigada por aceitar o desafio e cumpri-lo tão lindamente.

Capa do livro

No mesmo dia (08/03/2020), atendendo as provocações de pessoas com as quais convivo, publiquei o livro Ervilhas tortas. Este livro é constituído de episódios da infância de Lindinha, uma menina que viveu sua infância lá na roça nos interiores do Paraná. Esta menina viveu muitas aventuras e desventuras numa vida simples na qual a criatividade tinha que ser acionada para assegurar diversão e lazer. Quem é Lindinha? Use a imaginação para descobrir ou leia o livro que lá eu conto.

Capa do livro

No mês de setembro a série Meninas, moças e mulheres que inspiram ganhou mais um volume. Foi a vez de resgatar a história de uma mulher que viveu nos séculos IV e V d.C. Você já ouviu falar de Hipátia de Alexandria? Não? Asseguro que você vai gostar de conhecer esta grande mulher que amou o conhecimento acima de qualquer coisa. Te convido a conhecer essa história contada no livro Hipátia de Alexandria: a matemática, astrônoma e filósofa lendária. Por que lendária? No livro eu conto. As lindas ilustrações que contam a história por outra linguagem são de Andréa Martau. Grata pela parceria. todos os livros podem ser adquiridos no site da Editora Inverso – http://www.editorainverso.com.br.

É, o ano de 2020 foi muito doloroso, porém não foi um ano perdido. Vimos muitos avanços no campo científico, principalmente para o desenvolvimento da vacina e de equipamentos para melhorar o tratamento desta doença tão cruel que assolou a humanidade. Graças a esses esforços e estudos o índice de mortalidade diminuiu sensivelmente, embora permaneça alto. O aprendizado foi grande e a solidariedade também. Vimos muitas ações sendo feitas para minimizar os impactos da pandemia na vida da população mais carente. Pudemos perceber muitas pessoas deixando seu melhor lado florir, vir à tona.

Agora estamos batendo às portas de 2021 e é hora de renovar as esperanças. Esta renovação é possível por estarmos vendo, ali na frente, a vacina chegando (no Brasil ela está sendo conduzida por uma lesma, mas virá! O descaso dos governantes me irrita e entristece profundamente!). Junto com a vacina vem a esperança dos encontros, dos abraços, dos chás com as amigas, das idas à praia, aos shoppings, das viagens, das aglomerações…

Mas será que voltaremos a viver a vida como antes? Espero que não. Espero que tenhamos aprendido a ser mais solidários/as, a olhar e a enxergar o outro/a, a nos cuidar e cuidar dos/as outros/as, a respeitar a natureza, a valorizar a ciência, as/os professoras/es e o SUS, a nos respeitar. Espero ainda, que a vacina chegue para todas as pessoas e que essas pessoas não acreditem em notícias falsas, invencionices de pessoas mal intencionadas, danosas, inescrupulosas, mau caráter e vacinem-se para que possamos minimizar as consequências desta pandemia.

Que venha 2021 e que seja mais leve. Cuide-se pois eu quero te encontrar bem no novo ano.

Mulheres nas HQ

Por: Lindamir Salete Casagrande

As mulheres tem se inserido nas mais diversas profissões, porém algumas carreiras ainda se constituem em redutos masculinos. Isso se dá pela baixa presença de mulheres nestas profissões. Este é um fato e não se pode negar. Entretanto, podemos nos questionar as razões pelas quais elas não se “interessam” por tais profissões é fundamental. Estas razões são múltiplas em vão desde a falta de estímulo de familiares, amigos/as, professores/as, passa pela falta de exemplos a serem seguidos e chega ao machismo que impera em determinadas profissões e segmentos da sociedade. O machismo se manifesta por meio de piadas machistas, falta de credibilidade e confiança na capacidade delas, apropriação das ideias de mulheres, silenciamento de suas vozes, interrupção de suas falas, dentre outras formas de preconceito e discriminação.

O mundo HQ (história em quadrinhos) é um destes redutos em que os homens são a grande maioria, porém, esta história está mudando. O 31º Troféu HQmix ocorrido no último domingo, dia 15 de setembro de 2019, em São Paulo, premiou mulheres em diversas categorias. Essa foi uma edição histórica pois as mulheres jamais haviam sido tão premiadas. Ao subir ao palco para receber seus troféus, levaram consigo o discurso feminista, que clama pelo reconhecimento de sua capacidade de atuar e falar sobre os mais diversos temas. Estre discurso empoderado evidencia que elas estão cientes e dispostas a lutar contra o machismo e toda a forma de preconceito, a conquistar cada vez mais espaço neste campo da cultura nacional.

Mulheres foram premiadas nas seguintes categorias:

Novo Talento Roteirista (Me Leve Quando Sair – Jéssica Groke)

Colorista Nacional (Desafiadores do Destino – Mariane Gusmão)

Livro Teórico (Tradução de Histórias em Quadrinhos – Carol Pimentel)

Novo Talento Desenhista (Saudade – Melissa Garabelli)

Quadrinho Independente (Histórias Tristes e Piadas Ruins – Laura Athayde)

Publicação Independente em Grupo (Orixás – Germana Viana, Alex Mir e Laudo Ferreira Jr.)

Tese de Doutorado (A Escola no Túnel do Tempo: Imaginários Sociodiscursivos e Efeitos de Sentido em Charges Contemporâneas sobre a Educação de Ontem e de Hoje – Eveleine Coelho Cardoso) 

Publicação Mix (Gibi de Menininha: Histórias de Terror e Putaria – Ana Recalde, Camila Torrano, Camila Suzuki, Carol Pimentel, Clarice França, Fabiana Signorini, Germana Viana, Katia Schittine, Mari Santtos, Milena Azevedo, Renata C B Lzz, Roberta Cirne e Talessak.

Parabéns mulheres talentosas e que não fogem a luta!