Conversando Sobre: Um projeto que une a troca de afetos à construção do conhecimento

Por: Lindamir Salete Casagrande

Na última reunião do Núcleo de Gênero e Tecnologia do ano de 2019 surgiu a proposta de levarmos a discussão sobre ciência para além das quatro paredes das salas de aula da universidade. Espaços como livrarias, cafés, pátios abertos de universidades, institutos federais e escolas estavam nos planos para sediar este evento. Naquele momento definiu-se que a primeira edição aconteceria no mês de março, dentro da programação do Mês das mulheres na UTFPR e abordaria a história de Marie Curie. Michel Alves Ferreira e eu conduziríamos a atividade que aconteceria no pátio coberto da Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR) – campus Curitiba, sede centro. O livro infantojuvenil Marie Curie: uma história de amor pela ciência seria utilizado como ponto de partida para a conversa. Com esta definição, fomos para as férias de verão.

Cartaz da edição presencial arte de Letícia Rodrigues

No retorno em fevereiro de 2020, tomamos as providencias para fazer acontecer a atividade programada e, no dia 11 de março de 2020, as 12 horas, nos reunimos no pátio central da UTFPR, munidos de caixa de som e microfone para uma conversa sobre ciência. O pátio central fica em frente ao restaurante universitário e o horário foi escolhido por sabermos que muitos/as estudantes estariam na fila do almoço e poderia ouvir nossa conversa enquanto aguardavam sua vez de se alimentar. Foi ali que aconteceu a primeira edição do projeto Conversando sobre. O que nós não sabíamos é que seria também a última no formato presencial. A pandemia do Coronavírus batia a nossa porta e no domingo, 15 de março de 2020, o reitor da UTFPR suspendeu as atividades presenciais e o projeto teve que ser interrompido. Seria o fim do projeto? Essa dúvida pairou sobre nossas cabeças.

Depois de um tempo de inércia por não sabermos que rumo tomar, algumas pessoas, dentre elas, minha orientanda de doutorado Glacielli Thaiz Souza de Oliveira, começaram a me instigar a fazer algumas lives mas eu resisti por não ter domínio deste espaço. Mas, depois de um tempo refletindo, em conversa com Michel, decidimos migrar o projeto Conversando sobre para o mundo virtual e escolhemos a plataforma do instagram para realizar as conversas afetuosas e cheias de conhecimento.

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Cartaz da primeira live – arte de Letícia Rodrigues

Depois de um planejamento, fizemos o convite para pessoas de nossas relações que poderiam contribuir ao projeto. Iniciamos com as que já haviam aceitado fazer uma participação no modo presencial. Sendo assim, no dia 16 de junho de 2020, Michel deu a largada a nova modalidade do projeto recebendo a Dra. Regina Facchini (Unicamp/Cadernos Pagu) para uma conversa sobre Divulgação Científica, Gênero e Desigualdades em Tempos de Quarentena. No dia seguinte, 17 de junho, Michel deu continuidade ao projeto recebendo Dra. Megg Rayara Gomes de Oliveira (UFPR), a primeira travesti negra a defender o doutorado em educação na UFPR, para uma conversa sobre Pessoas Trans, Tecnologias e Sociedade. Foram duas conversas impactantes e que nos estimulavam a seguir.  Dia 18, foi minha vez de receber minha querida amiga Dra. Cíntia de Sousa Batista Tortato (IFPR), única mulher a compor o corpo docente do mestrado em Ciência, Tecnologia e Sociedade na ocasião de sua criação junto ao IFPR-campus Paranaguá,  para abordar a temática Mulheres pesquisadoras e, no dia seguinte, 19 de junho foi a vez de eu receber a queridíssima Dra. Ângela Maria Freire de Lima e Souza (UFBA) para Uma Conversa Feminista Sobre Ciência. Ângela é uma das mulheres que mais orientou e ainda orienta pesquisas de mestrado e doutorado na área de gênero e ciência no Brasil.Foi uma semana intensa de troca de afetos e construção de conhecimento com mulheres fantásticas que nos brindaram com seu conhecimento e sua amizade.

Na semana seguinte, no dia 22 de junho, o projeto alçou voo internacional. Michel recebeu a Dra. Brigitte Baptiste (EAN – Colômbia), primeira mulher trans a assumir a reitoria de uma universidade colombiana, para uma conversa sobre os Desafíos para las personas LGBTI: enredando conocimientos y experiencias en tiempos de pandemia. E fechamos a primeira rodada de lives com a conversa de Michel com Msc. Giseli Cristina dos Passos (SEED/PR) e Esp. Gesiele Vargas (SEED/PR) sobre Lesbianidades, Tecnologias e Vivências na Educação.

Esta primeira leva de lives foi diversificada, apresentou debates profundos e plenos de afetos. Foi uma experiência muito positiva e nos levou ousar mais em nossos convites, bem como no número de lives para o mês seguinte. No mês de julho fizemos uma programação composta por 15 conversas com pesquisadoras e pesquisadores de diversos lugares do país, bem como, da Colômbia.

Cartaz da primeira live do mês de julho – arte de Letícia Rodrigues

Iniciamos o mês de julho no qual eu recebi a minha eterna orientadora e amiga, bem como uma das pessoas que mais orientou dissertações e teses na área de Gênero, Ciência e Tecnologia no Brasil, a queridíssima Dra. Marília Gomes de Carvalho (UTFPR) para conversar sobre Família e gênero em tempos de pandemia no dia 06 de julho. No dia seguinte a conversa sobre Racismo linguístico: questões interseccionais foi entre Michel e Dr. Gabriel Nascimento (UFSB). Na sequência, dia 08 de julho, tive o prazer de receber uma das cientistas brasileiras mais reconhecidas tanto no Brasil, quanto no exterior.  Dra. Marcia Cristina Bernardes Barbosa (UFRGS) e eu travamos uma provocante conversa intitulada Feminismos: algumas verdades inconvenientes. Dia 10 de julho, Michel recebeu Antonio Pita (sócio fundador – Díaspora Black) para uma discussão sobre como o turismo pode ser excludente e pensar formas de mudar esta realidade na live intitulada Turismo, racismo, sexismo e tecnologias. A semana foi encerrada de forma brilhante, em conversa guiada pelos orixás entre Michel e Dr. Sidnei Nogueira (Instituto Ilê-Ará) com o título Ignorância, diversidades, religiosidades afro e (r)existires. Foi uma semana com muita troca de conhecimento, reflexões sobre nosso cotidiano e sobre o futuro.

A semana seguinte iniciou com uma participação internacional. No dia 13 Michel recebeu Christian Camilo Galeano Benjumea (jornal on-line La Cola de Rata – Colômbia) para uma conversa sobre Subjetividades fragmentadas en tiempos de pandemia. No dia seguinte foi minha vez de receber a baiana que vive lá no garrão do Brasil, Dra. Eliade Lima (UNIPAMPA) para uma conversa afetuosa e provocativa na live intitulada Astronomia e Astrofísica também é lugar para elas. No dia seguinte, atravessamos o País e aterrissamos no Pará para conhecer o projeto Manas Digitais. A conversa foi com a coordenadora do projeto Dra. Danielle Couto (UFPA/Projeto Manas Digitais). Finalizamos a semana com uma excelente conversa sobre Divulgação científica de mulheres: as cientistas em foco e ação com a queridíssima Dra. Camila Silveira da Silva (UFPR). Nesta live pudemos falar sobre nossos projetos de divulgação da produção científica de mulheres. Abordamos nossos projetos em vigência com Camila falando sobre o Livreto passatempos Mulheres nas Ciências: Coronavírus disponível online no endereço https://meninasemulheresnascienciasufpr.blogspot.com/2020/05/livreto-passatempos-mulheres-nas.html e eu abordei a série meninas, moças e mulheres que inspiram que consiste em livros destinados ao público infantojuvenil publicados pela Editora Inverso (www.editorainverso.com.br). Foi uma semana intensa na qual pudemos conhecer um pouco da ciência feita de norte a sul deste nosso país.

Dia 20 de julho eu iniciei mais uma semana deste projeto que começou no presencial e ganhou o meio digital recebendo Msc. Thiago Teixeira (PUC-Minas/Revista Senso) para a live Ética inflexiva e questões de gênero. Foi mais uma excelente conversa com uma temática superatual e importante. Na sequência tive uma excelente reflexão sobre a Cruzada anti-gênero e estratégias de resistência! A educação em disputa com a competentíssima Dra. Dayana Bruneto Carlin dos Santos (UFPR). Nela pudemos refletir como a parcela conservadora da sociedade distorceu os estudos de gênero para atingir seus objetivos pessoais e políticos. No dia 22 foi a vez de viajamos virtualmente para Mossoró, no Rio Grande do Norte, para conhecer uma jovem cientista que muito nos orgulha. Recebi Ekarinny Medeiros (Facene-RN e voluntária do projeto Ciência para Todos – RN) na live intitulada Ganhe o mundo com uma boa ideia. Ekarinny ganhou o mundo com a ciência e me fez sentir que estaremos muito bem representadas futuramente. Para encerrar a semana, Michel recebeu a Msc. Patrícia Teixeira (IFPR) para uma conversa sobre Memória, patrimônio e racismo. Foi mais um excelente momento de troca de afetos e construção e disseminação do conhecimento.

A última semana do mês foi conduzida pelo Michel. No dia 27 ele recebeu Bruno Nzinga Ribeiro (Unicamp) para a live cujo título foi Cruzamentos de raça, gênero e sexualidades sob o ponto de vista de um jovem pesquisador. Foi o momento de receber mais um jovem pesquisador para abordar uma temática atualíssima e tão necessária nestes momentos de intolerância e falta de respeito em que vivemos. O mês foi encerrado com a live Tecnologías de los cuerpos y acompañamiento médico de personas trans en Colombia que o Michel dividiu com Juan David Cañaveral Orozco (Residente de Sexología Clínica y Médico Cirujano de la UdeC).

Como podemos ver, foi uma programação bem diversificada e que contou com a participação de mulheres (cis e trans) e homens, com suas singularidades para debater temas contemporâneos e urgentes nestes tempos de pandemia. Para mim, este projeto é uma janela para o mundo, mantém meu contato com o mundo lá fora, além de proporcionar encontros afetivos e que me enriquecem muito como ser humano que sou.

Agradeço, em meu nome e do Michel, a todas as pessoas que dedicaram um tempinho de suas vidas para participar deste projeto e, de modo especial, à Letícia Rodrigues que tem nos brindado com sua arte e produzido lindos cartazes para divulgação de nosso projeto.

O projeto segue sua caminhada com uma vasta programação para agosto e setembro. Se você não nos acompanhou nesta trajetória, as lives estão disponíveis no instagram meu (@lindamirsalete) e do Michel (@michelitoferreira). Apoie o projeto “Conversando sobre” assistindo nossas lives e divulgando a programação. Não pode assistir ao vivo? Tudo bem. Está gravado no IGTV. Deixe seu comentário, seu like e siga este blog para me incentivar a mantê-lo atualizado. Ele é feito com muito carinho para vocês.

Natália Mota: uma médica e cientista nordestina desvendando a esquizofrenia

Por: Lindamir Salete Casagrande

Natália Mota
Fonte: Arquivo pessoal

A esquizofrenia é um transtorno psiquiátrico que dificulta o julgamento adequado sobre a realidade que pode se manifestar de diversas formas como, por meio da presença de alucinações e delírios, pensamento e discurso desconexo, incapacidade de manifestar afetividade e de se relacionar com as outras pessoas, dentre outras.

Foi este transtorno que despertou o interesse de pesquisa da psiquiatra e neurocientista cearense Natália Mota. A dificuldade de diagnosticar a doença começou a povoar a mente e provocar inquietações em Natália já na graduação. Esta dificuldade causava sofrimento à família e aos pacientes pois levava a um tratamento equivocado por um longo tempo, causando sofrimento, incertezas, preconceito, isolamento e dor. Isso precisava mudar e, pensando em diminuir este tempo de diagnóstico, Natália iniciou, no ano de 2006, o desenvolvimento de um programa computacional que facilita o diagnóstico da doença diminuindo o tempo para tal diagnóstico e antecipando o tratamento adequado. Antes baseado exclusivamente em exame clínico, agora o diagnóstico pode ser traduzido em números, o que facilita o acompanhamento do desenvolvimento, avanço ou recuo, da doença. Com isso, o tratamento pode ser melhor avaliado e ajustado de acordo com o/a paciente.

O trabalho da doutora Natália foi reconhecido internacionalmente ao ser indicada, no ano de 2019, ao prêmio Nature Research Award, sendo a única cientista sul-americana a obter tal indicação. Este prêmio é destinado a mulheres cientistas que inspiram outras meninas/moças/mulheres a ingressarem na carreira científica. Com certeza, Natália é uma dessas mulheres.

A pesquisa está sendo desenvolvida em parceria com pesquisadores/as da Inglaterra e os resultados estão despertando o interesse dos estrangeiros. Em depoimento a Ícaro Carvalho da Tribuna do Norte, publicada em 15/02/2020, ela afirma que: “Grupos estrangeiros estão procurando a tecnologia feita aqui para aplicar em outros lugares do mundo”, fato que demonstra a replicabilidade do projeto em países com outras culturas e outros idiomas. É a ciência nordestina alçando voos internacionais e, levando consigo, o nome de nosso país, mesmo com os parcos recursos destinados a ciência no Brasil. Ela afirma que o índice de sucesso no diagnóstico da esquizofrenia obtido com o uso do programa de computador chega a 90% dos casos analisados.

No ano de 2020 Natália foi eleita uma das mulheres mais poderosas do Brasil pela Forbes Brasil. Isso se deve a capacidade intelectual, seriedade, dedicação e esforços por ela empreendidos ao fazer ciência. 

Mas quem é Natalia Mota?

Para apresentar a pessoa que está por traz deste projeto, entrei em contato com Natália via facebook e ela, gentilmente, me permitiu conhecer as entranhas de sua trajetória. É com base neste depoimento que construo o texto que segue.

Ela é a filha caçula de uma família nordestina tendo mais uma irmã e um irmão. Nascida em Fortaleza, Ceará, desde criança gostava de ciência e cresceu em um ambiente em que a leitura e as discussões políticas eram companhia frequente no cotidiano familiar. O pai foi exilado político devido ao golpe de 64 e a mãe participou ativamente do movimento pela anistia em Fortaleza. Essa militância fez com que eles se conhecessem e formassem uma linda família e nos presenteassem com Natália. A vivência familiar despertou nela o desejo e a certeza que deveria ao menos tentar mudar, para melhor, a realidade na qual estava inserida. Despertou a consciência de que havia muito a ser feito para melhorar a sociedade. Essa consciência norteou sua caminhada.

Natália, motivada pela curiosidade, mesmo tendo predileção para física, foi convencida pelo seu pai e decidiu estudar medicina. Para tal, mudou-se para Natal, no Rio Grande do Norte onde fez a graduação em medicina, residência em psiquiatria, mestrado e doutorado em neurociências pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). Ela se orgulha de ter feito toda a formação acadêmica e científica no nordeste brasileiro. Com essa trajetória, ela evidencia que é possível obter formação de excelência sem, obrigatoriamente, sair de seu habitat, do lugar onde se sente bem, se sente em casa.

Desde o primeiro semestre do curso de medicina, Natália trabalhou no laboratório de neurociências da UFRN e logo se apaixonou pela psiquiatria. Durante o internato, iniciou suas atividades junto ao Instituto de Neurociências de Natal, em parceria com Sidarta Ribeiro, permanecendo lá até 2010 quando saiu para criar o Instituto do Cérebro onde atua até o momento. Durante a residência, coletou relatos de sonhos de seus pacientes e estudou matemática e programação – Sim, médicos/as precisam saber matemática e, no caso de Natália, a programação também foi fundamental.

No mestrado fez a primeira publicação de artigo “sobre análise de grafos em relatos de sonhos, já na perspectiva de auxiliar avaliação mental e diagnóstico” (Natália, 2020). Segundo Natália, no doutorado, teve a oportunidade de “participar por 3 vezes da LASchool, que me ajudou a buscar mais uma perspectiva de desenvolvimento cognitivo típico, e estudar infância e educação. Ganhei muita profundidade e amplitude na interpretação dos resultados que vinha colhendo.”

Natália também é mãe. O primeiro filho nasceu entre a residência e o mestrado e, segundo ela, “no doutorado ele ainda com 3 anos, observava com muita curiosidade e encantamento seu desenvolvimento. Isso transformou sem dúvida minha clínica e pesquisa.” Sim, ela teve que conciliar a maternidade com a vida acadêmica, tarefa que sobrecarrega as mulheres que decidem se desenvolver como profissional sem renunciar à maternidade. Ela afirma:

“Eu pude perceber, também no doutorado, a diferença de retorno para cientistas mulheres, principalmente as mães. De alguma forma sempre creditavam meus trabalhos aos meus colaboradores homens. Em resposta segui publicando, e produzi 15 artigos em 4 anos de doutorado, publicando 11 nesse período (os demais na sequência). Costumo dizer que estava com raiva, brincadeira com um fundo de verdade.”

Este depoimento de Natália evidencia que o trabalho das mulheres cientistas, além de ser dificultado pela forma como nossa sociedade lida com as atividades domésticas, pelos preconceitos que se impõe às mulheres, é, muitas vezes, usurpado pelos colegas do sexo masculino. A “raiva” dela é compreensível e justificada. Como não sentir raiva diante de situações tão injustas?

Mesmo enfrentando estas situações adversas, Natália conseguiu ter seu trabalho reconhecido e manter uma vida familiar saudável. Ao falar sobre sua rotina, ela afirma:

“Sou uma pessoa bem comum, apaixonada pelo trabalho e pelas minhas crias. Adoro brincar com eles, pintar, aquarelar. Danço balet e amo tocar pandeiro com meus amigos músicos. Se deixar viro a noite numa roda de samba. Na quarentena comecei a escrever contos, e como novos projetos estou empreendendo com um sócio uma startup na área de psiquiatria computacional. Dessa maneira pretendo tornar minha pesquisa autônoma financeiramente, e viabilizar a passagem da tecnologia das bancadas e artigos científicos para a vida das pessoas.”

Esta é uma síntese sobre quem é Natália Mota, a cientista que assim como Mandacaru que floresce na seca, conseguiu florescer e superar as adversidades impostas às mulheres cientistas em uma sociedade machista.

Hoje, aos 37 anos de idade, Natália conseguiu inscrever seu nome na história da ciência brasileira. É certamente uma mulher que inspira!

Fontes:

CARVALHO, Ícaro. Natália Mota: “Conseguimos mapear, com muita precisão, a perda de conectividade na esquizofrenia”. Tribuna do Norte. Disponível em: http://www.tribunadonorte.com.br/noticia/conseguimos-mapear-a-perda-de-conectividadea/472390. Acesso em: 27/04/2020.

DUARTE, Rafael. Reconhecida mundialmente, Natália Mota carrega o Nordeste em busca de igualdade e apoio à ciência brasileira. Mandacaru Científico. Disponível em: https://www.uol.com.br/ecoa/reportagens-especiais/causador-natalia-mota/#mandacaru-cientifico. Acesso em: 27/04/2020.

FORBES. As mulheres mais poderosas do Brasil em 2020. Disponível em: https://forbes.com.br/listas/2020/03/as-mulheres-mais-poderosas-do-brasil-em-2020/#foto14. Acesso em: 27/04/2020.

I SMSTEM: simpósio reuniu mulheres cientistas do presente e do futuro

Por: Lindamir Salete Casagrande

No último final de semana, 13 e 14 de março de 2020, aconteceu o I Simpósio Brasileiro de Mulheres nas STEM (I SMSTEM) que reuniu mulheres de todas as idades no Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA) em São José dos Campos, São Paulo, Brasil. Foi um momento lindo que ocorreu sob a ameaça do coronavírus que se espalhava pelo Brasil. Mulheres de todo o país se deslocaram, mesmo temerosas, até o ITA para compartilhar os resultados e práticas de seus projetos que estimulam a inserção e permanência de meninas/moças/mulheres nas áreas STEM (Science, Technology, Engeneering and Math) e eu estava dentre elas. Ao dar as boas-vindas ao evento, o reitor do ITA, prof. Dr. Anderson Ribeiro Correia ressaltou que nunca viu tantas mulheres naquele instituto no qual a maioria dos/as estudantes e professores/as são homens. Fizemos história.

Segundo as organizadoras, o evento superou as expectativas no que tange a quantidade de propostas. Foram 182 resumos submetidos e 145 aceitos. Todos apresentavam resultados de experiências bem sucedidas e realizadas nos mais distantes rincões deste país continental. Tivemos 32 apresentações orais e 115 pôsteres que foram divididos em duas seções. A imagem que segue mostra a distribuição dos trabalhos pelo território brasileiro. Os quatro estados com maior número de trabalhos foram São Paulo (44), Minas Gerais (17), Rio de Janeiro (15) e Paraná (12). Apenas 4 estados não compareceram ao evento. São eles, Acre, Ceará, Mato Grosso e Rondônia.

Mapa de distribuição dos trabalhos
Fonte: arquivo pessoal

A grande quantidade de submissões significa que muitas ações estão sendo realizadas pelo país com o intuito de promover a inserção e permanência feminina na área STEM e assim, diminuir gradativamente os obstáculos que a elas se impõe para se consolidarem e serem reconhecidas como cientistas, bem como, o preconceito com relação a participação feminina neste campo do conhecimento.

Foi um momento de muita aprendizagem. Eu arrisco dizer que este foi o Simpósio que mais me acrescentou conhecimento e esperança dentre todos os que tive a oportunidade de participar ao longo de minha trajetória acadêmica. A presença de muitas meninas, sim meninas, estudantes do ensino médio e universitário, renovou as esperanças e deu a certeza de que temos sucessoras. Meninas/moças com lindas iniciativas que possibilitam a maior aproximação e conhecimento de outras meninas/moças sobre o mundo da ciência. Com o conhecimento pode haver o encantamento e a decisão de seguir por este caminho. Este indicativo foi possível perceber nas falas das participantes, no brilho no olhar e no sorriso que era marca constante em seus rostos. Estas expressões injetaram uma dose extra de energia e vontade de continuar atuando junto com elas na transformação da realidade da juventude brasileira, de modo especial da parcela que encontra mais dificuldades e tem menos oportunidades.

Dentre a diversidade de trajetórias e de projetos, uma história chamou a atenção de todas as pessoas que lá estavam. Ela foi evidenciada já na abertura do Simpósio pela fala do vice-reitor Prof. Jesuíno Takachi Tomita que destacou a jornada que ela fez para chegar até São José dos Campos. Foram 12 horas de barco, 8 horas de voo e 1 hora de ônibus, isso tudo acompanhada de uma bebê de pouco menos de um ano de idade. Estou falando de Eliene Santos que pode ser conhecida na imagem que segue. Ela apresentou o projeto As ciências exatas e as “cunhantãs” do Quilombo do Abuí – Oriximiná – Pará. Cunhantã, segundo definição de Eliene, significa meninas/moças guerreiras. Eliene esteve presente em todo o evento e sua filha a acompanhou. Em nenhum momento a bebê chorou, parecia entender a importância da participação de sua mãe naquele momento histórico. Em vários momentos quis oferecer ajuda com a bebê, mas, em tempo de coronavírus, tive que me conter. Certamente muitas outras mulheres tiveram o mesmo sentimento e o mesmo cuidado.

Perseverança e determinação
Fonte: arquivo pessoal

Quando assisti à apresentação de seu projeto pude entender a razão do título, super adequado, diga-se de passagem. Eliene, com sua filha dormindo em seus braços, explicou que as meninas participantes do projeto tinham que se deslocar de barco em viagem que durava 12h desde o Quilombo do Abuí até Oriximiná, ou seja, 12h para ir e outras 12h para voltar. Contou inclusive, que em uma das viagens, o barco ficou à deriva com as crianças a bordo. Sem dúvidas elas, assim como Eliene, são guerreiras.

Eu estive lá apresentando um projeto que será desenvolvido neste ano junto às escolas municipais e estaduais de Curitiba e Região Metropolitana. O projeto Contando histórias de mulheres, inspirando crianças e adolescentes, embora embrionário pois ainda não foi colocado em prática, teve excelente aceitação e algumas participantes manifestaram a intenção de replicar o projeto em seus municípios, fato que me deixou extremamente feliz. Foi uma troca de experiência e de ideias muito produtiva e estimulante. A exposição na forma de pôster permitiu o contato direto com as demais participantes e surgiram muitos convites para fazer parceria e visitar outros projetos com participação em algumas atividades deles. Para que serve a participação em congressos e simpósio? Serve para compartilhar conhecimento, ampliar a rede de relações, planejar parcerias e construir amizades.

Eu e o projeto
Fonte: Arquivo pessoal

No dia 13 de março a tarde tive a oportunidade de lançar meus livros Marie Curie: uma história de amor à ciência, Zilda Arns: a tipsi que amava as crianças e Ervilhas tortas. Foi muito gratificante receber o carinho e apoio das mulheres que ali estavam. Também levamos o livro Ada Lovelace: a condessa curiosa de autoria de minha querida amiga Silvia Amélia Bim que fez muito sucesso por lá. Marie Curie e Ada Lovelace formaram uma linda e poderosa dupla e foram encantar as crianças e adolescentes Brasil afora.

Preparada para as dedicatórias.
Fonte: Arquivo pessoal

Outro momento importante e lindo do evento foi a palestra da profa. Dra. Marcia Barbosa. Ela aliou dados quantitativos e bom humor para denunciar os preconceitos e barreiras que se impuseram ao longo da história das mulheres nas ciências. Nas palavras dela, ciência se faz com pesquisa e dados, então seria baseada em dados que construiria sua fala e assim o fez. Ao final foi aplaudida de pé por uma plateia feminina e que se viu ali representada, tanto pela pessoa de Marcia (inteligente, competente, simpática, bem humorada e generosa), quanto pelos dados por ela apresentados. Aqueles obstáculos lhes eram familiares, elas tiveram que transpô-los para estarem ali.

Depois da palestra, Marcia continuava distribuindo sorrisos e gentilezas e não se negava em registrar aquele momento em muitas fotos. Me chamou a atenção o encanto que provocava nas meninas/moças que a cercavam e em mim também evidentemente. Na imagem que segue, reunimos algumas paranaenses para registrar o encontro com esta mulher encantadora e competentíssima. Sem abraços mas com muito afeto e sorrisos.

Paranaenses marcando presença e tietando
Fonte: arquivo pessoal

Essas são algumas memórias deste Simpósio memorável. Ao final acordamos que o II SMSTEM será realizado novamente no ITA daqui a dois anos (2022). Também acordamos que realizaremos encontros regionais bianuais a partir de 2023. Esperamos vocês lá.

Retornei para Curitiba com as energias renovadas e sem trazer na bagagem o coronavírus. Ufa!

As mulheres brasileiras que sequenciaram o genoma do Coronavírus

Por: Lindamir Salete Casagrande

Muitos ainda acreditam que as mulheres não têm capacidade, habilidade, interesse, disponibilidade para se dedicar a carreira científica. Esta crendice infundada sofreu um duro golpe neste último final de semana. Enquanto a maioria das pessoas brincavam o carnaval nas ruas ou descansavam em locais paradisíaco (inclusive eu!), um grupo de cientistas brasileiros liderados por duas mulheres, uma mais experiente (alguns chamariam de velha, fora de mercado) e outra jovem pós-doutoranda negra (inexperiente? Não!) trabalhavam arduamente para sequenciar o genoma do coronavírus, recém chegado ao Brasil, em tempo recorde nos laboratórios de duas instituições públicas, a USP e a FIOCRUZ.

Os/as cientistas, professores/as e funcionários/as públicos brasileiros têm sido covardemente atacados por setores conservadores de ultradireita do país. Acusados de maconheiros, vagabundos, responsáveis pela destruição do país, eles são lembrados e cobrados quando surge uma nova doença em escala nacional e internacional e dão respostas positivas como foi ocorrido neste final de semana, mesmo poucos recursos financeiros e de apoio. O vírus do primeiro paciente confirmado com a doença teve seu genoma sequenciado em 48 horas e o do segundo paciente em 24 h. Destaca-se que a Itália, país de onde foram importados os vírus, ainda não conseguiu fazer este sequenciamento (03/03/2020).

O episódio evidencia a relevância de se investir e defender as universidades e a ciência brasileira, bem como o SUS (todos precisamos dele!). No ano de 2010, 67,5% do total de cientistas brasileiros atuavam nas universidades. Dentre as instituições de ensino mais produtivas do Brasil as universidades públicas se destacam, daí a importância de defendê-las. Nós precisamos delas, para estudar, para desenvolver ciência que poderá solucionar problemas que nós mesmos criamos.

Sendo assim, é fundamental dar visibilidade às pessoas que dedicam suas vidas ao fazer científico e este blog tem por objetivo dar visibilidade às mulheres que tem como objetivo de vida desenvolver ações em prol do bem comum. Sendo assim, vou fazer uma singela homenagem por meio deste post às duas mulheres que lideraram os trabalhos de sequenciamento do genoma deste vírus que assombra a população mundial. São elas Ester Cerdeira Sabino, diretora do Instituto de Medicina Tropical (IMT) da USP e Jaqueline Goes de Jesus, pós-doutoranda na Faculdade de Medicina da USP e bolsista da agência de fomento Fapesp. Vamos conhecer um pouco mais sobre elas?

Profa. Dra. Ester Sabino

Ester Cerqueira Sabino
Fonte: site da Revista Claudia

Ester formou-se em medicina no ano de 1984 pela Universidade de São Paulo – USP e concluiu seu doutorado em Imunologia pela USP no ano de 1994. Atualmente é professora Associada do Departamento de Moléstias Infecciosas da Faculdade de Medicina da USP e Diretora do Instituto de Medicina Tropical da USP desde 2015. Investigadora principal dos programas do NIH “Recipient Epidemiology and Donor Evaluation Study-IV pediatric” e do “São Paulo- Minas Gerais Neglected Tropical Disease Research Center for Biomarker Discovery”. Coordenadora do projeto PITE FAPESP “A translational study for the identification, characterization and validation of severity biomarkers in arboviral infections” e do projeto FAPESP/MRC ” The Brazil-UK Centre for Arbovirus Discovery, Diagnosis, Genomics and Epidemiology (CADDE)”. Seus estudos são desenvolvidos principalmente nas áreas de segurança transfusional, HIV, doença de Chagas, arboviroses e anemia falciforme (Currículo Lattes).

Ester é fruto de uma universidade pública na qual obteve a sua formação acadêmica, bem como, desenvolveu sua vida profissional, devolvendo à sociedade o investimento que possibilitou seu desenvolvimento profissional.

Como coordenadora do Centro Conjunto Brasil-Reino Unido para Descoberta, Diagnóstico, Genômica e Epidemiologia de Arbovírus (Cadde), entidade dedicada ao estudo em tempo real epidemias de arboviroses, como Dengue e Zika que assombram o país e é um desafio para a sociedade brasileira, ela argumenta que o objetivo do trabalho desenvolvido no Cadde “é produzir respostas que ajudem os serviços de saúde em testes diagnósticos e no desenvolvimento de vacinas.” (PAIVA, 2020, online) Sabemos que a Dengue e a Zika são doenças que assolam o país e atingem, de modo especial, as populações mais carentes. O paraná vive, neste verão, uma epidemia de Dengue que reflete a falta de compromisso da população e dos governos no combate ao mosquito causador deste mal. Pesquisas que visem minimizar os impactos destas doenças como as desenvolvidas no Cadde são fundamentais e merecem todo o apoio.

Ester, ao observar os primeiros casos de COVID-19 originados na China e que se espalhavam mundo afora, juntamente com sua equipe, “treinou pesquisadores para usar uma tecnologia de sequenciamento conhecida como MinION, que já é usado para monitorar a evolução do vírus Zika nas Américas.” (PAIVA, 2020, online) 

Sendo assim, com a experiencia acumulada nos estudos sobre outros vírus e o treinamento realizado previamente, a equipe conseguiu sequenciar o genoma do Coronavírus em apenas 48 horas. Ester afirmou, em entrevista para Letícia Paiva, da revista Claudia que:

“Ao sequenciá-lo, ficamos mais perto de saber a origem da epidemia. Sabemos que o único caso confirmado no Brasil veio da Itália, contudo, os italianos ainda não sabem a origem do surto, pois ainda não fizeram o sequenciamento de suas amostras. Não têm ideia de quem é o paciente zero e não sabem se ele veio diretamente da China ou passou por outro país antes.”

Dona de um currículo invejável, Ester assina 247 artigos publicados em revistas nacionais e internacionais, além de 15 capítulos de livros sobre medicina.

Sem dúvidas é uma mulher cientista inspiradora!

Dra. Jaqueline Goes de Jesus

Jaqueline Goes de Jesus
Fonte: Site da Revista Claudia

Jaqueline  graduou-se em Biomedicina pela Escola Bahiana de Medicina e Saúde Pública no ano de 2012, concluiu o mestrado em Biotecnologia em Saúde e Medicina Investigativa (PgBSMI) pelo Instituto de Pesquisas Gonçalo Moniz – Fundação Oswaldo Cruz (IGM-FIOCRUZ) no ano de 2014 e o doutorado em Patologia Humana e Experimental pela Universidade Federal da Bahia em 2019. Desenvolveu atividades de pesquisa no Laboratório de Biologia Molecular na Fundação Hemocentro de Ribeirão Preto (FUNDHERP) e no Laboratório de Biologia Celular e Molecular do Câncer da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto – Universidade de São Paulo (FMRP-USP). Desenvolve pesquisas na área das arboviroses emergentes ZIKV, DENV, CHIKV, YFV, ORV e MAYV. Integra o ZIBRA Consortium e participa do ZIBRA project – Zika in Brazil Real Time Analisys (http://www.zibraproject.org/), projeto itinerante de mapeamento genômico do vírus Zika no Brasil. Realizou estágio de doutoramento sanduíche na Universidade de Birmingham, Inglaterra, desenvolvendo e aprimorando protocolos de sequenciamento de genomas completos pela tecnologia de nanoporos dos vírus Zika, HIV, além de protocolos para sequenciamento direto do RNA. Atualmente desenvolve pesquisas como bolsista FAPESP, em nível de pós-doutorado, no Instituto de Medicina Tropical de São Paulo – Universidade de São Paulo (IMT-USP), no âmbito do CADDE – Brazil-UK Centre for Arbovirus Discovery, Diagnosis, Genomics and Epidemiology (http://caddecentre.org). (Currículo Lattes)

Com base no breve currículo exposto acima percebe-se que Jaqueline é uma mulher negra que dedicou sua vida aos estudos sobre vírus e doenças que acometem a população sem distinção de cor, raça, classe social, orientação sexual. Sua formação, realizada integralmente em universidades públicas, a qualificou para coordenar e conduzir os trabalhos para o sequenciamento do genoma do coronavírus no Brasil. Jaqueline, ao desenvolver suas pesquisas voltadas a entender os vírus que causam doenças que atingem e afligem a população brasileira, devolve a sociedade o investimento público em sua formação. Sua trajetória evidencia a relevância de se investir e defender as universidades públicas. É nelas que se forma as/os pesquisadoras/es que fazem as pesquisas que podem beneficiar a população.

Jaqueline ainda é uma cientista em formação, estando no início de sua carreira tem a oportunidade de desenvolver suas pesquisas por meio do pós-doutorado financiado pela Fapesp. Ela é uma mulher da qual vamos ouvir falar muito. Apesar se sua pouca idade já conseguiu registrar seu nome dentre as maiores cientistas do Brasil.

Em seu perfil no Instagram, Jaqueline agradece o carinho e apoio recebido e afirma
“Muito obrigada pelo carinho que tenho recebido de todos vocês: familiares, amigos e pessoas que ainda não conheço. Mas não poderia deixar de enfatizar que não estou sozinha nessa jornada. Tudo é fruto do trabalho incansável de uma equipe extremamente dedicada da qual faço parte.”

Ao reconhecer e enaltecer a importância de toda a equipe na obtenção do resultado, Jaqueline deixa transparecer que além de uma grande cientista, é um ser humano que preza pelo respeito e o trabalho em equipe. Não seria nada de mais se o ocultamento da contribuição da equipe não fosse tão frequente no meio científico, principalmente, das mulheres cientistas.

Jaqueline é uma jovem mulher negra que inspira!

Os demais pesquisadores/as que contribuíram para levar essa missão a cabo são:

Dr. Claudio Tavares Sacchi, responsável pelo Laboratório Estratégico do Instituto Adolfo Lutz;

Dr. Nuno Faria, Dr. Oliver Pybus;

Dra. Sarah Hill;

Doutorando Darlan Candido, da Universidade de Oxford;

Dr. Joshua Quick e Dr. Nicholas Loman, da Universidade de Birmingham;

Mestre Filipe Romero, da UFRJ;

Mestre Pâmela Andrade;

As estudantes Mariana Cardoso e Camila Maia;

A bióloga Thais Coletti;

A farmacêutica Erika Manuli;

As biomédicas Ingra Morales e Flavia Sales.

Fontes:

MELO, Rafael.  Cientistas brasileiras são as mais rápidas no mundo a sequenciar o coronavírus. Disponível em: https://razoesparaacreditar.com/brasileiras-sequenciamento-genoma-coronavirus/?fbclid=IwAR0IxN6iWdw6YHrOyV0soirFb3J7DvL4mbWQJV47BGWPk0UfEJDdhdtJqx4. Acesso em: 03/03/2020.

PAIVA, Letícia. As brasileiras que sequenciaram o genoma do coronavírus. Disponível em: https://claudia.abril.com.br/sua-vida/as-brasileiras-que-sequenciaram-o-genoma-do-coronavirus/. Acesso em: 03/03/2020.

PLATAFORMA LATTES. Ester Cerdeira Sabino. Disponível em: http://lattes.cnpq.br/8590492866942091. Acesso em: 03/03/2020;

PLATAFORMA LATTES. Jaqueline Goes de Jesus. Disponível em: http://lattes.cnpq.br/5852030355340056. Acesso em: 03/03/2020.

Renata Bertazzi Levy – Uma das Cientistas mais influentes do mundo

Por: Lindamir Salete Casagrande

Fonte: Divulgação/Faculdade de Saúde Pública/USP

Renata é pesquisadora científica VI no Departamento de Medicina Preventiva da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo – USP, principal universidade brasileira. Também atua como pesquisadora colaboradora do Núcleo de Pesquisas Epidemiológicas em Nutrição e Saúde da USP. Com graduação em Nutrição pela Pontifícia Universidade Católica de Campinas – PUC-Campinas (1991), Mestrado (2002) e Doutorado (2007) em Saúde Pública pela Faculdade de Saúde Pública da USP, se tornou uma dos/as 6000 cientistas mais importantes do mundo. Esse número engloba pesquisadores e pesquisadoras de 60 países e conta com apenas15 nomes de brasileiros na lista, sendo que, destes 15, somente quatro são mulheres. Este reconhecimento foi feito pelo instituto britânico Clarivate Analytics em 2019.

Atuando no Programa de Pós-graduação em Nutrição e Saúde Pública e no Programa Pós-graduação de Medicina Preventiva da USP em nível de mestrado e doutorado, sua experiência em saúde coletiva e suas pesquisas no campo da epidemiologia nutricional a inseriram neste seleto grupo de pesquisadores/as. Ela é referência quando se trata do impacto social e de saúde dos produtos ultraprocessados, tão presentes em nossas mesas. Ela faz parte do grupo que desenvolveu o NOVA, uma classificação que divide os alimentos por grau de processamento e que já foi utilizada para gerar políticas públicas no Brasil. Sobre esta escala, Renata afirmou, em depoimento ao Catraca Livre, publicado em 15/01/2020, que:

“Essa classificação de alimentos que a gente desenvolveu em 2010, denominada NOVA, elevou o país para um patamar diferente na ciência mundial de alimentação. Ela mudou o paradigma da área de epidemiologia nutricional, tirou um pouco o foco reducionista do nutriente e mudou a maneira de enxergar a alimentação.”

Outro de seus relevantes estudos analisa os impactos destes produtos na alimentação escolar, não só nos alimentos oferecidos na merenda escolar, mas também nos que são comercializados no entorno das escolas. Considera que o consumo de salgadinhos e refrigerantes, produtos que se enquadram neste grupo de alimentos e são desejados e acessíveis às crianças e adolescentes, pode resultar em hipertensão, obesidade e até quadros de asma. Em entrevista a Marcio Candido, para o Universa em 27/11/2019, ela argumentou que “As mesmas políticas de combate ao fumo, por exemplo, poderiam ser aplicadas para diminuir o consumo de ultraprocessados”. Acredito que esta redução deve ocorrer não somente nas escolas, mas na alimentação geral da população.

Pensar, pesquisar e divulgar dos estudos nesta área do conhecimento pode melhorar as políticas públicas de alimentação das crianças e adolescentes das escolas públicas brasileiras.

Renata considera que o Brasil, devido a seu tamanho, deveria ter mais cientistas nesta lista, porém, considera que isso é reflexo do baixo investimento em ciência que ocorre no País. Em sua opinião “o Brasil tinha que ter mais cientistas e mais mulheres na lista” (CANDIDO, 2019, online). As outras três cientistas brasileiras que figuraram na lista são Heniette M.C. de Azevedo e Renata Valeriano Tonon, da Embrapa, e Miriam D. Hubinger, da Unicamp.

Renata também foi homenageada, na categoria Ciência, com o Prêmio Cidadão SP, em evento ocorrido no Museu de Arte Moderna de São Paulo – MAM em 25 de janeiro de 2020.

Na atualidade, Renata trabalha em um estudo coordenado pelo Núcleo de Pesquisas Epidemiológicas em Nutrição e Saúde da Faculdade de Saúde Pública da USP, no qual serão acompanhados os hábitos alimentares e dados de saúde de 200 mil brasileiros/as por dez anos. O projeto é intitulado NutriNet Brasil.

As pesquisas de Renata visam melhorar a qualidade de vida dos brasileiros e brasileiras com base na mudança dos hábitos alimentares.

Renata é uma mulher brasileira que inspira!

Fontes:

CANDIDO, Marcos. Professora da USP entra em ranking de cientistas mais influentes do mundo. Universa. Disponível em: https://www.uol.com.br/universa/noticias/redacao/2019/11/27/professora-da-usp-entra-em-lista-de-cientistas-mais-influentes-do-mundo.htm?fbclid=IwAR3bSk9Vowf5Q2WVg2tr6cGIUCmDstmEUPSY0Kp0S1D6iKDi-m9sTp6b1lY. Acesso em: 07/02/2020.

CATRACA LIVRE. Prêmio Cidadão SP homenageia Renata Bertazzi Levy, em Ciência. Disponível em: https://catracalivre.com.br/cidadania/premio-cidadao-sp-homenageia-renata-bertazzi-levy-em-ciencia/. Acesso em: 07/02/2020.

Marithania Silvero: Lugar de mulher é… na matemática!

Por: Lindamir Salete Casagrande

Marithania Silvero Casanova
Fonte: El Español

Marithania, nascida em Huelva na Espanha em 1989, é professora assistente da Universidade de Sevilha na área de Matemática. Ela, desde muito jovem, gostou de desafios o que a fez se apaixonar pela matemática e pela ciência. Seu principal passatempo na infância e adolescência era resolver os problemas matemáticos. Era uma menina que fugia aos padrões esperados em um ser do sexo feminino.

Quando questionada por Paolo Fava (2019, online, tradução nossa) sobre quando surgiu seu interesse pela matemática ela respondeu:

“desde os sete ou oito anos. A matemática sempre foi o que eu mais gostava. E tive a sorte de ter professores muito bons que sempre me propunham a resolução de problemas como uma meta. Ou uma adivinhação. E em minha casa brincávamos muito, como, por exemplo, no carro: ‘Vamos somar as placas!’.”

Seu amor pela matemática se manteve aceso e só aumentou com seu crescimento e amadurecimento. Diante disso, ela percebeu que a carreira matemática era o caminho a ser seguido e assim o fez. Em 2015, com apenas 24 anos de idade, concluiu seu doutorado com a tese intitulada On some families of links and new approaches to link homologies (Em tradução livre – Em algumas famílias de vínculos e novas abordagens para vincular homologias) defendida na universidade de Sevilha, Espanha.

Marithania é uma pesquisadora que gosta da pesquisa em matemática pura e defende a pesquisa básica, fundamental para o desenvolvimento científico de qualquer país. Em entrevista a Raúl Limón (2019, online,) Silvero afirmou:

“Gosto de pesquisa pura, de ciência básica, a responsável por expandir os limites do conhecimento. Se depois meus resultados puderem ajudar cientistas de outras áreas a resolver seus problemas, ficarei feliz, mas esse não é meu objetivo.”

Silvero se especializou em “teoria dos nós” e assim explica, para pessoas leigas, o que é um nó:

“Lhe diria para pensar em uma corda normal, amarre as duas pontas com um nó. O que estudamos são as transformações que podemos fazer nessa corda sem rompê-la: esticando-a, passando uma parte por cima da outra… Em linguagem matemática, diríamos que se busca formas de deformar o espaço de uma dimensão (a cordapode ser comparada a uma reta) para um espaço de três dimensões.” (FAVA, 2019, online, tradução nossa)

Seus estudos estão dando resultados. Neste ano de 2019 ela recebeu o “premio de Investigación Matemática Vicent Caselles que otorgan la Real Sociedad Matemática Española y la Fundación BBVA” (FAVA, 2019, online, grifos do autor) por ter refutado a conjectura de Louis Kauffman, cientista estadunidense, que já durava 30 anos. Ela encontrou um nó que rebate a teoria de Kauffman (não vou explicar essa teoria aqui, pois meu objetivo e apresentar Marithania) e isso a fez merecedora de tal premiação. Esta refutação ocorreu pouco antes de um encontro entre Silvero e Kauffman, seu mestre, que não só endossou a descoberta de Silvero como os dois se tornaram colaboradores e parceiros de pesquisa.

Silvero atribui seu êxito em sua caminhada ao apoio de familiares, amigos/as e professores/as. Ela ressalta a importância dos/as professores/as na vida dos/as estudantes. Em sua opinião, professores/as que amam o que ensinam e transmitem esse amor aos/às seus/suas alunos/as podem fazer com que as aulas sejam mais agradáveis e atrativas e assim, aumentar o interesse pela aula e palos estudos.

Ela, embora afirme não ter sofrido os preconceitos que se impõe às mulheres que almejam ou melhor, ousam, adentrar nas áreas científicas, reconhece que eles existem e dificultam a trajetória das mulheres nesta área do conhecimento. Em suas palavras “Não senti um tratamento diferente ao dispensado aos meus companheiros, mas é verdade que conheço companheiras que tiveram outras experiências” (Silvero apud LIMÓN, 2019, online,). Silvero destaca que quando fala que é matemática costuma ouvir um espantado “não parece!”. Isso se deve aos estereótipos do que é um/a cientista. Normalmente as pessoas pensam que matemáticos são do sexo masculino e velhos. Marithania é mulher, jovem e bonita, ou seja, não pode ser matemática. Pode sim!

Destaca ainda a importância de modelos atuais para que mais jovens se interessem pela área científica. Para ela, as mulheres que se destacaram no século XIX e até antes dele, não servem de exemplo, pois, as adolescentes atuais não se identificam com elas. Neste aspecto eu discordo de Silvero e acredito ser fundamental que as meninas/moças/mulheres conheçam as suas antecessoras e se inspirem nelas independente de que século elas são. Entretanto concordo com ela no que diz respeito à relevância de se mostrar a história de mulheres atuais que sirvam de exemplo e de inspiração. Por isso escolhi contar brevemente a história de Marithania. Ela é sem dúvida uma mulher da atualidade e serve de exemplo por sua genialidade.

E você? Gostou de conhecer essa brilhante mulher que ama a matemática? Então curta, siga, compartilhe este blog para que possamos continuar contando outras histórias de meninas, moças e mulheres brilhantes.

Fontes:

FAVA, Paolo. La matemática andaluza que solucionó a los 26 la conjetura que nadie había resuelto en 30 años. El Espanhol, 08 de outubro de 2019. Disponível em: https://www.elespanol.com/ciencia/investigacion/20191008/matematica-andaluza-soluciono-conjetura-nadie-resuelto-anos/434956720_0.html . Acesso em: 21/12/2019

LIMÓN, Raúl. Jovem matemática refuta conjectura estabelecida há 30 anos. El País, 21, dezembro de 2019. Disponível em: https://brasil.elpais.com/ciencia/2019-12-21/jovem-matematica-refuta-conjectura-estabelecida-ha-30-anos.html?fbclid=IwAR1WOxfFIo7H2JYUXYPJWacaewABIeOkUNe6UK4IhSq9guYjDkkWoYKB7Qk . Acesso em: 23/12/2019.Os nós. Disponível em: https://www.math.tecnico.ulisboa.pt/~cviva/teoria_dos_nos.html. Acesso em: 23/12/2019.

Amanda Maloste: uma menina/moça que ama e acredita na ciência

Por: Lindamir Salete Casagrande

Amanda Maloste – arquivo pessoal

O projeto Samis

O isopor® é um produto muito utilizado pela indústria brasileira. Seu uso auxilia no transporte de produtos frágeis e serve também como utensílios domésticos descartáveis. É um produto prático por ser leve, impermeável, isolante térmico e barato. Seria perfeito se não demorasse cerca de 150 anos para se decompor na natureza. Estudo realizado na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), o Brasil consome quase 37 toneladas de isopor® ao ano. Todo este material, depois de utilizado, vai para o lixo. Um grupo de estudantes de Campo Largo, região metropolitana de Curitiba, estado do Paraná, formado por três alunas e uma professora desenvolveu um estudo para produzir um substituto ao isopor® que fosse mais sustentável.

A equipe formada pelas alunas do Colégio Sesi Alessandra Akemi Hashimoto Fragoso, Amanda de Souza Maloste e Jessica Cristina Burda e pela professora de biologia Juliana de Fátima Cunha Vidal, ao participar da olimpíada interna do Sesi, foi desafiada a descobrir uma nova aplicação para algum alimento/vegetal produzido na região. Ao desenvolver a pesquisa constataram que o milho era o alimento mais cultivado na região e responsável pela produção de um grande volume de resíduos sólidos, dentre eles o sabugo de milho que era raramente reaproveitado. Com base nessa descoberta elas decidiram desenvolver um produto para reaproveitar o material desperdiçado pela indústria (o sabugo) para substituir um produto altamente poluente (o isopor®) por um similar biodegradável. E assim surgiu o Samis: Uso do sabugo de milho para substituição do poliestireno expandido, nome que deram ao projeto. Neste projeto desenvolvido no programa de iniciação científica vemos a ciência contribuindo para preservação do meio ambiente.

Recentemente o projeto foi premiado na 16ª Feira Brasileira de Ciências e Engenharia (Febrace), que ocorreu em março de 2018, na Universidade de São Paulo (USP), concorrendo com outros 346 finalistas.

Após seis meses de testes, levantamento de dados, produção de artigos científicos, apresentação de protótipos, os resultados foram satisfatórios. Em entrevista publicada na Agência Sistema FIEP em 09 de abril de 2018, Amanda Maloste afirma: “Diversos testes foram feitos e identificamos as melhores soluções em relação à impermeabilidade, porosidade, flamabilidade, decomposição e plasticidade. Em nosso sétimo protótipo, conseguimos resultados 100% positivos, que possibilitam a viabilização do produto e posterior aplicação no mercado. Em relação ao uso, a proposta é no transporte de materiais frágeis, artefatos de decoração ou bandejas de alimentos”, ou seja, é um substituto ao isopor® tradicional.

Em matéria publicada na página do colégio Sesi em 22 de março de 2018, Juliana Vidal, a orientadora do projeto, destaca a importância de iniciativas como esta. Para ela “atividades como essas proporcionam aos alunos uma forma de colocar em prática todo o conhecimento que adquirem no Ensino Médio, com aprofundamento científico na resolução de problemas contemporâneos”.

A Professora Juliana Regina Kloss, que assumiu a coorientação do projeto após parceria firmada com a UTFPR afirmou, em entrevista ao e-campus em 09 de novembro de 2019, que: “Muitos estudantes acham que não dão conta de entrar em uma Federal, a maioria acaba indo pro ensino privado, mas é importante mostrar que isso é possível e incentivar esses alunos a continuarem os seus estudos e também seguirem na área da pesquisa”. Projetos como este podem estimular mais jovens a acreditar em suas potencialidades.

Fases do protótipo-arquivo pessoal
Fase atual-arquivo pessoal

Como cheguei a este projeto?

Durante a realização da oficina O uso de história de MULHERES no ensino fundamental – a história de Marie Curie na III Semana das Licenciaturas da UTFPR comentei sobre este blog e pedi que, caso alguma participante conhecesse algum projeto na área de ciências desenvolvido por jovens mulheres que havia conquistado visibilidade e destaque que me indicassem via e-mail. Imediatamente um grupo de participantes apontou para a mesma pessoa. Uma jovem menina/moça, sorridente, com olhos brilhantes e que se chama Amanda de Souza Maloste (por que será que ela estava ali?). Imediatamente solicitei que me encaminhasse um e-mail para que eu pudesse escrever este post e assim ela o fez. Quando recebi o texto produzido por Amanda percebi que além de uma cientista brilhante, apaixonada pelo saber, ela tem o dom da escrita. Seu texto está tão rico que resolvi publicá-lo na íntegra. Então, convido vocês a conhecer a história dessa jovem cientista brasileira contada por ela mesma!

 “Eu me chamo Amanda de Souza Maloste, tenho 18 anos. Nasci em Curitiba, mas sempre morei em Campo Largo. Estudei durante todo ensino fundamental em escola pública e no ensino médio, consegui uma bolsa integral em um colégio particular (Colégio SESI Campo Largo). E foi lá que meus sonhos passaram a se tornar realidade e minha trajetória mudou para sempre.

Desde muito pequena, eu sempre fui muito sonhadora, adorava ler e escrever, sonhava em mudar o mundo, em tocar o coração das pessoas de alguma forma com a escrita e acreditei, durante muito tempo, que mudaria o mundo por publicar um livro e ajudar alguém. Mas a vida foi capaz de me mostrar que eu poderia ser capaz de mudar o mundo de outra forma. Sendo uma garota, sendo Cientista e inspirando outras garotas a brilharem na ciência. E, utilizando minha facilidade com escrita, propor ideias que mudem o mundo!

Sempre gostei muito de estudar. Eu cresci me inspirando no meu pai. Ele sempre foi uma figura na qual eu queria me espelhar, isso porque, ele definitivamente era uma das mentes mais inteligentes que eu já havia conhecido. Eu queria ser como ele. E então, ele despertou em mim a paixão pelos estudos, mas como nem tudo são flores, minha vontade de ser tão inteligente como meu pai me deixou muito vulnerável porque eu achava que minhas notas definiriam quem eu era e isso acabou despertando em mim uma Amanda insegura, que se cobrava e não parecia suficiente, que achava que ninguém iria enxerga-la por nada. 

Foi então que minha história tomou um rumo totalmente diferente. Quando eu estava no segundo ano do ensino médio, eu conheci minha atual melhor amiga, a Jessica, e não sei explicar, mas eu vi algo nela brilhante e a convenci a entrar comigo na olimpíada de ciências do colégio. Foi aí que definitivamente minha história mudou.

Jessica e Amanda – arquivo pessoal

Nessa olimpíada, nós tínhamos que desenvolver um aparato tecnológico com algum vegetal produzido em nossa região. Ao pesquisar em nosso município, descobrimos que era o milho. Mas como ela era filha de agricultor, sabíamos que o milho tinha muita funcionalidade, mas o sabugo em si não. Foi então que decidimos que íamos usá-lo para algo, e juntas, fizemos muita pesquisa em conjunto com nossa professora orientadora Juliana Vidal (de novo, uma mulher! Que timaço, né?). Escolhemos tentar criar embalagens para eletroeletrônicos para substituir o isopor®, isso porque o poliestireno expandido não era biodegradável e gerava milhares de problemas para o meio ambiente, e como o sabugo não era uma matéria utilizada e acabava por geral problemas para o agricultor, começamos a desenvolver um projeto de pesquisa baseado em resolver esses problemas.

Em junho de 2017, fizemos nosso primeiro protótipo, assim, nossa professora propôs que participássemos de feiras de ciências para alunas/os de ensino médio e nós, como duas garotas empolgadas, aceitamos! 

Fomos para feira de ciências estadual, depois para nacional (na USP, onde ganhamos quarto lugar em ciências biológicas). Nessa fase, a olimpíada já tinha acabado, mas nós queríamos continuar na pesquisa porque tanto eu quanto a Jessica, tínhamos descoberto uma nova paixão: Fazer ciência. E todas as inseguranças que eu tinha sobre mim, já não existiam. Eu sabia que era capaz. E sabia que era capaz de muito, não mais pelo meu pai, mas por mim.

Então por mais que nossa ideia estivesse fluindo, ainda não era ideal para aplicar no mercado, nessa fase, estava muito difícil enxergar que conseguiríamos melhorar, porque a ideia da pesquisa era fantástica e inovadora, mas o protótipo possuía muitos problemas.

Então, em maio de 2018, começamos uma parceria com a UTFPR – campus Curitiba. Definitivamente, a melhor coisa que nos aconteceu. Começamos a trabalhar com a doutora na área de polímeros Juliana Regina Kloss (mais uma mulher, yeah!) e ela nos apresentou produtos que formavam espumas, e começamos a trabalhar nas tardes no colégio e alguns dias no laboratório da UTFPR. Ambas estávamos no ensino médio e tudo era muito cansativo, mas ainda assim, prazeroso.

Com a segunda fase do projeto, a do ano de 2018, conseguimos segundo lugar geral na feira de inovação (FIciências), onde ganhamos 2 mil reais e esse ano, realizamos nossos maiores sonhos e tivemos a maior oportunidade de nossas vidas. Fomos apresentar nosso projeto na USP novamente, na Febrace, uma feira pré-universitária para alunas/os de ensino médio e técnico, onde recebemos segundo lugar em ciências exatas e da terra, prêmio de destaque em desenvolvimento sustentável pela revista Ricco, melhor projeto paranaense e a oportunidade que mudou minha vida: Ser uma das 18 equipes escolhidas para representar o Brasil na maior feira pré-universitária do mundo, a INTEL ISEF, que tinha como avaliadores ganhadores do NOBEL! E melhor, a viagem tinha todas as despesas pagas pela USP. 

Aquilo definitivamente mudou minha vida, minha forma de ver o mundo. Eu fiz uma viagem internacional por uma ideia produzida no ensino médio, eu e minha melhor amiga descobrimos o mundo juntas. 

E então, eu já não era a Amanda insegura, eu era a Amanda que vestiu a camisa do país, saiu de uma cidade pequena para competir com mentes brilhantes. Uma Amanda que provou para o mundo que lugar de mulher é onde ela quiser, inclusive fazendo ciência. Fazendo ciência internacional e conhecendo o mundo pela ciência!!!!

Hoje eu digo sem medo, tudo valeu a pena até aqui. Todas as vezes que disseram que não íamos conseguir, todos os testes que deram errado e a gente teve que refazer um milhão de vezes, todas as noites sem dormir em época de vestibular porque estava escrevendo artigo científicos. Tudo valeu a pena.

Hoje, a Amanda que existe aqui dentro é eternamente grata por terem acreditado no potencial dela. E minha eterna gratidão vai ser para minhas professoras orientadoras, que sempre acreditaram em mim e na Jessica. Que sempre nos apoiaram a ser pessoas melhores.

E sem sombra de dúvidas, se hoje estou no primeiro semestre da faculdade, na UTFPR, estudando química para ser professora, é pelo que vivi no ensino médio. Hoje não posso mais participar de feiras de ciências, entretanto, minha motivação é me tornar uma professora e uma cientista tão boa que possa mudar a vida de jovens por meio da ciência, dar oportunidades àquelas/es que nunca teriam, e principalmente, fazer elas/es acreditarem em si mesmas/os,  assim como eu acredito em mim hoje. Da mesma forma que a ciência me mudou, eu quero que ela mude elas/es.” (Amanda Maloste, novembro de 2019)

Como vemos, Amanda é uma cientista encantada pelo saber, curiosa e determinada que recebeu apoio de outras mulheres maravilhosas em sua trajetória até aqui. Certamente ouviremos falar muito sobre ela futuramente!

Amanda é uma menina/moça que inspira!

Mas faltou uma parte dessa história.

E a Alessandra Akemi Hashimoto Fragoso? Que fim levou? A partir da parceria com a UTFPR, Alessandra deixou o projeto. Espero que continue amando a ciência.

Quem é Jessica Burda? Quem sabe contamos a história dela em um próximo post?! Você quer conhecer Jessica? Eu quero!

Fontes:

Agência FIEP. Alunas do Colégio Sesi de Campo Largo desenvolvem material para substituir isopor. Disponível em: https://agenciafiep.com.br/2018/04/09/alunas-do-colegio-sesi-de-campo-largo-desenvolvem-material-para-substituir-isopor/. Acesso em: 09/11/2019.

Colégio Sesi. Alunas de Campo Largo conquistam quarto lugar na 16° Feira Brasileira de Ciências e Engenharias. Disponível em: http://www.sesipr.org.br/colegiosesi/alunas-de-campo-largo-conquistam-quarto-lugar-na-16-feira-brasileira-de-ciencias-e-engenharias-2-14110-364053.shtml. Acesso em: 09/11/2019.

E-campus. Campus Curitiba – SESI CAMPO LARGO: parceria conquista prêmios nacionais e internacional. Disponível em: https://ecampus.ct.utfpr.edu.br/2019/utfpr-sesi-campo-largo-uma-parceria-que-contribuiu-para-a-conquista-de-04-premios-por-alunas-do-ensino-medio/. Acesso em: 09/11/2019.

Folha de Londrina. Alunas do Paraná vão representar o Brasil em feira internacional de ciências. Disponível em: https://www.folhadelondrina.com.br/cidades/alunas-do-parana-vao-representar-o-brasil-em-feira-internacional-de-ciencias-2938494e.html. Acesso em: 09/11/2019.

Lívia Eberlin e a “Caneta” que pode salvar vidas

Por: Lindamir Salete Casagrande

Eberlin (Foto: Divulgação)
Fonte: Revista Gsalileu

Lívia Eberlin é uma cientista brasileira que desenvolveu uma “caneta” capaz de detectar células cancerosas em 10 minutos. Este artefato tecnológico, que carrega em si anos de pesquisa e muito conhecimento, auxilia os médicos e médicas durante as cirurgias para retirada de tumores de câncer.  Durante as cirurgias é impossível enxergar a olho nu se foi retirado todo o tecido doente, fato primordial para o êxito no tratamento. Antes da caneta era necessário manter um/a patologista a disposição durante as cirurgias para analisar as amostras e verificar se toda a lesão havia sido retirada. Cada análise demorava cerca de 30 a 40 minutos. Se o resultado fosse favorável, tudo certo, mas, caso o exame apontasse que ainda não tinha sido retirado todo o tumor havia necessidade de repetir o processo, às vezes, mais de uma vez. Cabe destacar que o/a paciente estava sob efeito de anestesia e isso era muito complicado. Caso a cirurgia fosse finalizada sem a total remoção das células doentes a reincidiva era (e ainda é) quase certa.  

Com a criação desta caneta, o tempo de análise cai para cerca de 10 minutos o que permite que, caso o resultado indique que ainda restam células cancerosas, a retirada seja realizada e o material submetido a novo exame. Com o uso deste artefato tecnológico pode-se preservar ao máximo o órgão acometido pela doença resultando numa melhor recuperação do/a paciente. A presença do/a patologista permanece fundamental, porém, ele/a conta com uma ferramenta a mais para tornar o trabalho mais preciso e exitoso. Como o objetivo de Livia e sua equipe era desenvolver um aparelho auxiliasse os/as médicos/as durante as cirurgias e preservasse ao máximo os tecidos saudáveis, a MasSpec Pen está sendo uma ferramenta adequada e eficaz. Em entrevista para Rodrigo de Oliveira Andrade para artigo publicado na Revista pesquisa FAPESP, edição 277/maio/2019, Lívia afirma:

“Já utilizamos em 70 pacientes e os resultados foram todos muito bons”, e complementa, “O dispositivo, ainda em fase de testes, conseguiu analisar com sucesso tecidos cancerígenos e saudáveis.”

Os estudos desenvolvidos por Livia com o intuito de criar equipamentos que facilitem e melhorem o diagnóstico de câncer estão sendo reconhecidos e ela recebeu, neste ano de 2019, “uma bolsa da Fundação MacArthur, concedida a profissionais de destaque em suas áreas de atuação” (ANDRADE, 2019, online). Ela terá a disposição de sua equipe US$ 625mil dólares pra aplicar em suas pesquisas, da forma que achar melhor, durante os próximos 5 anos. A ideia de Lívia é disseminar o uso MasSpec Pen em hospitais mundo afora.

Pesquisadores fazendo testes com a caneta que detecta câncer (Foto: The MacArthur Foundation)
Fonte: Revista Galileu

Mas, quem é esta cientista brasileira? 

Lívia é filha do também químico e professor Marcos Eberlin, responsável pelo Laboratório ThoMSon do Instituto de Química da Unicamp. Fez bacharelado em Química na Universidade de Campinas concluído em 2008. Durante a graduação foi iniciada nos estudos em espectrometria de massas pelo próprio pai. Quando estava no segundo ano da graduação decidiu estagiar, durante as férias, no Laboratório Aston da Universidade de Purdue, em Indiana, nos Estados Unidos. Com o estímulo de seu orientador de iniciação científica e intermediação de seu pai, e com isso ela pode estagiar com o professor Robert Graham Cooks com quem, posteriormente, fez seu doutoramento, iniciado em 2008, sem passar pelo mestrado. Livia destaca que o que diferencia a ciência desenvolvida no Brasil da ciência feita nos EUA é a pouca destinação de recursos às instituições de pesquisa brasileiras. Em entrevista a Luiz Sugimoto no número 599 do jornal da Unicamp, publicado em 2014, ela ressalta que:

 “O professor Cooks foi fundamental ao me dar a chance de aplicar a técnica na detecção de cânceres, mas esta conquista não seria possível sem a excelente formação que recebi na Unicamp e no Laboratório ThoMSon do IQ – foi o meu alicerce.”

 Ela poderia ter (e talvez tenha) sido acusada de conseguir fazer esta trajetória graças a influência de seu pai, o que de fato pode ter contribuído, porém em nada teria resultado se não fosse a capacidade e dedicação aos estudos e à ciência de Livia. Marcos Eberlin esclarece:

“Ser minha filha é coincidência, pois Livia passou em vigésimo lugar no vestibular da Unicamp e em primeiro na Química, tendo sido uma excelente aluna de iniciação científica. Antes de se graduar, ela quis fazer um estágio no exterior e, já conhecendo bem os nossos equipamentos e os princípios da espectrometria de massas, passou três períodos de férias trabalhando para o professor Cooks, decidindo então pelo doutorado com ele. É a segunda geração de Eberlin’s naquele laboratório da Universidade de Purdue” (SUGIMOTO, 2014, online).

No ano de 2011, após a conclusão do doutorado, ela mudou-se para a California e iniciou o pós-doutorado no Departamento de Química da Universidade Stanford e foi supervisionada pelo químico Richard Zare, tendo a oportunidade de continuar as pesquisas na mesma temática.

No ano de 2014 ela recebeu o prêmio de melhor tese de doutorado em química dos Estados Unidos da América, razão pela qual recebeu o Nobel Laureate Signature Award 2014 – prêmio desejado pelos/as pesquisadores/as da área e traz a assinatura da maioria dos/as cientistas que ganharam o prêmio Nobel de Química. Ela foi a primeira cientista brasileira (mulher e homem) a ganhar esta láurea.

Em 2016 conseguiu uma vaga de professora assistente no Departamento de Química da Universidade do Texas, em Austin, EUA. Ali ela formou sua própria equipe de pesquisadores/as e desenvolveu o projeto que resultou na produção do dispositivo MasSpec Pen sobre o qual versamos no início deste post.

Livia conta com mais de 20 premiações ao longo de sua trajetória acadêmica que pode ser considerada meteórica. Aos 32 anos já é PhD em Química e conta com sua própria equipe de pesquisa. Porém, nem tudo foram flores. Sugimoto (2014, online) destaca que “Na primeira vez em que Livia Eberlin se posicionou com seu equipamento na sala de cirurgia do hospital da Harvard Medical School, os médicos lhe dirigiram olhares céticos, como se perguntassem o que uma química fazia ali.” Mas Livia sabia muito bem o que fazia ali. Fazia ciência, fazia história.

Fontes:

CENTAMORI, Vanessa. Cientista brasileira cria caneta que detecta câncer durante cirurgias. Revista Galileu, 2019. https://revistagalileu.globo.com/Ciencia/noticia/2019/09/cientista-brasileira-cria-caneta-que-detecta-cancer-durante-cirurgias.html. Acesso em: 19/10/2019.

INCLUSÃO 360. Livia Eberlin, cientista brasileira PhD de 32 anos, ganha bolsa para ‘gênios’ nos EUA. Disponível em: https://www.inclusao360.org/mulheres/livia-eberlin-cientista-brasileira-phd-de-32-anos-ganha-bolsa-para-genios-nos-eua/.  Acesso em: 19/10/2019.

MACARTHUR FOUNDATION. Livia S. Eberlin. Disponível em: https://www.macfound.org/fellows/1008/. Acesso em: 19/10/2019.

SUGIMOTO, Luiz. Técnica pioneira rende prêmio nos EUA a graduada pela Unicamp. Jornal da Unicamp, Campina, 2019. Disponível em: https://www.unicamp.br/unicamp/ju/599/tecnica-pioneira-rende-premio-nos-eua-graduada-pela-unicamp. Acesso em: 19/10/2019.

Rafaella de Bona: jovem cientista paranaense ganha prêmio internacional

Por: Lindamir Salete Casagrande

Ao pensar em um/a cientista geralmente vem a mente um homem, branco, cabelos grisalhos, um tanto pitoresco, entretanto essa imagem não condiz com a realidade encontrada nas universidades e centros de pesquisa brasileiros. Cada vez mais as mulheres adentram neste universo e, com sua inteligência, capacidade, sensibilidade, racionalidade e empatia mudam este estereótipo de cientista que foi construído ao longo dos séculos. Nos últimos anos vemos uma onda de meninas/moças/mulheres que estão se destacando com seus projetos de pesquisa que obtém destaque no cenário nacional e internacional. Este é o caso de Rafaella de Bona, jovem cientista paranaense.

Rafaella de Bona – arquivo pessoal

Ela desenvolveu o “Maria – absorvente íntimo”, um absorvente interno sustentável feito à base de fibra de banana e pensado para atender mulheres em situação de rua. Com este projeto Rafaella recebeu, no dia 20 de setembro de 2019, o “prêmio alemão ‘iF Design Talent Award’ [que] teve 9192 projetos inscritos em 2019, segundo o Centro Brasil Design” (KANIAK, G1 PR, 09/10/2019), destes 13 eram brasileiros e o projeto de Rafaella foi o único projeto brasileiro premiado neste ano.

Ela afirmou para Thais Kaniak (G1 PR, 09/10/2019) que este

“É o melhor prêmio de design que existe. Uma das coisas que mais me motivou foi dar visibilidade ao tema do projeto. Só as pessoas pararem para pensar sobre o assunto já é muito bom. É gratificante.”

Sua premiação foi na categoria estudante que, segundo ela, recebeu cerca de quatro mil inscrições das quais 52 foram selecionadas e Rafaella foi a única brasileira. “Não caiu a ficha, parecia surreal”. (KANIAK, G1 PR, 09/10/2019).

Rafaella de Bona/Divulgação

Mas quem é Rafaella de Bona? Ela é uma jovem universitária paranaense de 22 anos que fez o curso técnico em Mecânica Industrial no Instituto Federal do Paraná (IFPR), campus Curitiba e hoje é acadêmica do 3º ano do curso de Design de Produto na Universidade Federal do Paraná (UFPR), ou seja, fruto da educação pública a qual ela defende e apoia (e eu também!). Reside em Curitiba e lançou seu olhar sensível e competente para as mulheres em situação de rua. A empatia de Rafaella se manifesta quando ela afirma:

“Escolhi o design de produto como profissão para solucionar problemas através do olhar do usuário e suas necessidades e, com isso, poder ajudar o mundo.”

Viver em situação de rua é difícil para qualquer pessoa e ainda mais para as mulheres. Ali falta cidadania, dignidade, alimentação, proteção, conforto, atenção à saúde, segurança e muito mais. Além de todos os riscos que se impõe a todos/as que só tem a rua para viver ou, por razões diversas, escolhem a rua como “moradia” sobre as mulheres recai ainda o risco de estupro e de gravidez não planejada da qual elas e somente elas serão acusadas de não se cuidarem e engravidarem propositadamente. Muitas fingem loucura para espantar e afastar possíveis abusadores, porém esta estratégia nem sempre é eficaz. A vida nas ruas não é fácil nem segura.

Sabemos que nós mulheres, em situação de rua ou não, temos necessidades diferentes dos homens e uma delas diz respeito ao período menstrual. Mulheres em situação de rua também menstruam! Também precisam de atendimento médico! Também merecem cuidado e proteção! Incrível né? Não. Incrível é pensar e reconhecer que a sociedade tem negligenciado essa causa e abandonado esta parcela da população.

Rafaella, com sua empatia, sensibilidade, inteligência e capacidade olhou para estas mulheres e lançou a pergunta que a maioria de nós nunca fez. Em entrevista para Luan Galani da Gazeta do Povo (25/09/2019, online, grifos do autor) ela indagou:

“Já parou para pensar no malabarismo que as mulheres em situação de rua têm que fazer para lidar com a menstruação?”

Pergunta pertinente e urgente. Esse questionamento surgiu para ela e, ao finalizar o curso de Especialização em design – soluções de impacto no mundo que cursou no Centro Europeu paralelamente ao curso universitário, ela optou por estudar e pesquisar “sobre a ODS (Objetivo de desenvolvimento sustentável) Número 1, que é a da erradicação da pobreza. Com o lema ‘Agir local para impactar global’”. Ela reconhece que todos os professores e professoras do curso a apoiaram em seu projeto, de modo especial, os designers Mauricio Noronha, Rodrigo Brenner e Riorgior Ranger; o oceanógrafo Bruno Libardoni e a médica Andressa Gulin.

Em entrevista para Thais Kaniak do G1 PR publicada em 09/10/2019 ela destaca que

“Queria trabalhar localmente. Comecei a procurar esse problema em Curitiba. Cheguei aos moradores de rua e, então, cheguei às mulheres em situação de rua. Tem problemas que só cabem a elas”.

Foi assim que ela chegou à “Pobreza Menstrual e sabia que aquele era o tema certo para desenvolver o projeto”. Sendo assim, foi em busca de conhecimento para desenvolver o projeto que pode minimizar este problema social. Ela define o produto como “prático, higiênico e universal” e afirma que o absorvente se adapta às condições que as mulheres em situação de rua enfrentam em seu cotidiano. Cabe destacar que o projeto foi desenvolvido em apenas 4 meses.

Projeto do absorvente foi desenvolvido como trabalho de conclusão de curso
Foto: Rafaella de Bona -Arquivo pessoal

Rafaella lembra que, por enquanto o “Maria” é um projeto e que a sua produção ainda não tem prazo e nem o custo de fabricação pois este depende da quantidade de produção do absorvente. A ideia é que o produto seja adotado pelas prefeituras e distribuído gratuitamente às mulheres em situação de rua. Ela uma reunião agendada com o prefeito de Curitiba.

“Meu desejo com o Maria, é abrir os olhos da população para esse problema que muitas vezes é esquecido. Não precisam usar o meu projeto em si, mas só de pararem para pensar nas mulheres em situação de rua já está me trazendo muita alegria e satisfação.” (Rafaella, 2019)

Como podemos ver, o projeto de Rafaella alia a ciência com a preocupação com os problemas sociais. Evidencia-se em sua história um olhar sensível, solidário, emotivo, humano, amoroso características que são comumente atribuídas às mulheres no intuito de desqualificá-las, de dizer que não são aptas a desenvolver ciência. Porém, estas características só engrandecem o seu trabalho e as suas conquistas.

Rafaella de Bona é uma menina/moça/mulher que me inspira e sensibiliza. Tenha certeza que seus professores e professoras, familiares, amigos e amigas e, todas as pessoas que acreditam em um mundo menos desigual, de modo especial, nós mulheres nos orgulhamos muito de você! Sucesso sempre!

Fontes:

GALANI, Luan. Estudante brasileira cria absorvente sustentável e ganha “Oscar” do design mundial. Gazeta do povo. Disponível em: https://www.gazetadopovo.com.br/haus/design/estudante-brasileira-cria-absorvente-sustentavel-e-ganhar-oscar-do-design-mundial-2019/?fbclid=IwAR0AKNNYiEFmgcBoFCOc22BOA25-BNsGyOxsz4IfJt5P0jgwawS_WJVi0Es. Acesso em: 25/09/2019.

KANIAK,Thais. Estudante de Curitiba desenvolve projeto de absorvente sustentável para moradoras de rua e ganha prêmio internacional de design. G1 PR. Disponível em:https://g1.globo.com/pr/parana/noticia/2019/10/09/estudante-de-curitiba-desenvolve-projeto-de-absorvente-sustentavel-para-moradoras-de-rua-e-ganha-premio-internacional-de-design.ghtml?fbclid=IwAR2QMHzwJfdHUVoVuLRHN2THPucoBQxh9DFGHCnw9huSQwrVX2dEjSdPG5U. Acesso em: 09/10/2019.

Letícia: uma jovem inventora e cientista paranaense

Por: Lindamir Salete Casagrande

Por que uma notícia de registro de uma patente chamou minha atenção? Seria um fato corriqueiro se não tivesse sido feito por uma estudante do ensino técnico integrado ao ensino médio. Eu quis saber mais sobre esta jovem inventora e resolvi compartilhar sua história com vocês. Na minha concepção, esta é uma história inspiradora. Vamos a ela.

Letícia Felizardo de Almeida Silva, uma jovem estudante paranaense de 19 anos de idade desenvolveu, em seu trabalho de conclusão de curso (TCC) do curso Técnico em Automação Industrial integrado ao Ensino Médio, um equipamento que visa evitar a morte de crianças esquecidas pelos pais no interior de veículos. Letícia registrou patente de seu invento e se tornou a primeira estudante do curso técnico do Instituto Federal do Paraná – campus Telêmaco Borba (IFPR-TB) a fazer um registro de patente.

O alto índice de crianças que morrem, em todo o país, por serem esquecidas pelos pais ou mães no interior de veículos chamou a atenção de Letícia. Este esquecimento ocorre, na maioria das vezes, quando o pai ou a mãe mudam suas rotinas e assumem o transporte das crianças à creche em casos esporádicos, fora da rotina. Como não estão habituados/as com esta função, acabam se distraindo, ligando o piloto automático de seus cérebros e indo direto para o trabalho ou outro compromisso do cotidiano. Se a criança está dormindo, o silêncio não chama a atenção do pai ou da mãe e daí vem o esquecimento e a tragédia. O veículo fechado leva ao superaquecimento de seu interior e a falta de ar resulta na morte da criança. É algo trágico, lamentável e desesperador, mas que ocorre com certa frequência, infelizmente. O assunto surgiu para Letícia em uma conversa com os familiares e, após pesquisar sobre o assunto, resolveu desenvolver o projeto que agora resultou no registro da patente. O desenvolvimento do projeto durou um ano e meio e teve o apoio e acompanhamento de seu professor/orientador do TCC.

Letícia Felizardo de Almeida Silva

Mas quem é Leticia? 

Nascida na cidade de Telêmaco Borba, porém, residindo em Caetano Mendes, um distrito de Tibagi, no interior do Paraná, a jovem estudante é fruto da escola pública e reconhece a importância do ensino público em sua vida.

Letícia é uma jovem sonhadora. Ela afirma que seu avô desenvolveu nela o gosto pela leitura e este hábito despertou-lhe o desejo de ser escritora. Ela afirma “comecei escrever um livro para crianças, sobre um galo pintor, baseado no livro ‘A Bolsa Amarela’, de Lygia Bojunga, mas não cheguei concluí-lo.” Eu acho que ela deveria retomar a escrita do livro e publicá-lo afinal, o sonho de ser escritora ainda é possível e é compatível com os estudos na área técnica uma vez que ela afirma que pretende “seguir na área técnica do meu curso, estudando e trabalhando.”

Ela afirma que mora em um sítio. É importante destacar que a vida zona rural, na roça,  tem seus encantos como o convívio com animais e plantas, o desfrutar da natureza, a liberdade de andar descalça/o, tomar banho de chuva e de rio, porém também impõe limites como a distância da escola, a dificuldade de acesso a artefatos tecnológicos, a distância de outras pessoas de mesma idade. Esta realidade desenvolveu em Letícia o amor pelos animais, manifestado no personagem principal de seu livro, “o galo pintor” e pelo desejo de fazer veterinária que a acompanhou na infância e adolescência. Porém, ao ingressar no IFPR desenvolveu o gosto pela área industrial, área na qual desenvolveu seu projeto. Para ela, estudar no IFPR não é fácil pois, “para chegar ao colégio tenho que percorrer 45km, todos os dias. As vezes temos que fazer sacrifícios para poder ter uma boa educação”. A distância é uma dificuldade, porém não um impeditivo. Esta é a realidade de muitos/as jovens do interior do Paraná. O sacrifício de Letícia está valendo a pena, seu trabalho começa a ser reconhecido.

O apoio da família, dos/as amigos/as e dos professores/as foi e é fundamental para que ela dê continuidade em sua trajetória acadêmica. Leticia afirma: “Recebi o apoio de todos os professores do IFPR, juntamente com os meus amigos e familiares. Agradeço a Deus e a eles por toda a ajuda que recebi.” Gratidão é um sentimento que transparece na fala de Letícia, bem como, a vontade de ajudar os/as outros/as. Em suas palavras “Sempre busquei ajudar quem precisa, fazer tudo o que estivesse ao meu alcance, buscando melhorar cada dia mais e poder fazer a diferença por onde passo.” Nesta fala de Letícia percebemos a empatia e a solidariedade que transbordam em sua forma de pensar e agir e se refletem em seu TCC.

A origem de Letícia, filha de uma família de agricultores, categoria fundamental para o desenvolvimento de nossa sociedade e pouco reconhecida e valorizada em nosso País, faz com que sua trajetória tenha superado inclusive a sua própria expectativa. Isso fica evidente no trecho de seu depoimento que segue:

“Nunca imaginei que um dia chegaria onde cheguei. Não tinha condições de estudar em uma escola particular e no IFPR pude ter um ensino público e de qualidade. Cresci muito dentro dessa instituição e agradeço o apoio e as oportunidades que eles me proporcionam lá dentro. Agradeço todos os professores que me acompanharam ao longo da minha vida acadêmica, no meu crescimento e contribuíram para ele. Aos poucos venho descobrindo o meu potencial e espero que todas as meninas da minha idade nunca desistam de buscar aquilo que sonham.”

Acho que agora vocês entendem o motivo pelo qual eu quis contar essa história. Letícia é uma dessas meninas/moças/mulheres que nos fazem acreditar em um mundo melhor. Um mundo que respeite a todas as pessoas, que proporcione oportunidade de estudo e aprendizagem a todas/os.

A história de Letícia também serve para evidenciar a importância do ensino público de qualidade no desenvolvimento da potencialidade de jovens brasileiros/as das classes menos abastadas. Defender as escolas e as universidades públicas é defender o direito de Letícias, Joãos, Marias, Joaquins, Ágathas, Kauês, Jenifers, Kauãs permanecerem vivas/os e se tornarem pessoas capazes de contribuir para o desenvolvimento do País.

Empática, solidária, simpática, inteligente, proativa, persistente, sonhadora, dedicada, capaz, amável, bonita, inventiva, criativa e cientista são alguns adjetivos que se aplicam à Letícia.

Parabéns Letícia! Eu também espero que todas as meninas possam sonhar e realizar seus sonhos!