Por: Lindamir Salete Casagrande

Natália Mota
Fonte: Arquivo pessoal

A esquizofrenia é um transtorno psiquiátrico que dificulta o julgamento adequado sobre a realidade que pode se manifestar de diversas formas como, por meio da presença de alucinações e delírios, pensamento e discurso desconexo, incapacidade de manifestar afetividade e de se relacionar com as outras pessoas, dentre outras.

Foi este transtorno que despertou o interesse de pesquisa da psiquiatra e neurocientista cearense Natália Mota. A dificuldade de diagnosticar a doença começou a povoar a mente e provocar inquietações em Natália já na graduação. Esta dificuldade causava sofrimento à família e aos pacientes pois levava a um tratamento equivocado por um longo tempo, causando sofrimento, incertezas, preconceito, isolamento e dor. Isso precisava mudar e, pensando em diminuir este tempo de diagnóstico, Natália iniciou, no ano de 2006, o desenvolvimento de um programa computacional que facilita o diagnóstico da doença diminuindo o tempo para tal diagnóstico e antecipando o tratamento adequado. Antes baseado exclusivamente em exame clínico, agora o diagnóstico pode ser traduzido em números, o que facilita o acompanhamento do desenvolvimento, avanço ou recuo, da doença. Com isso, o tratamento pode ser melhor avaliado e ajustado de acordo com o/a paciente.

O trabalho da doutora Natália foi reconhecido internacionalmente ao ser indicada, no ano de 2019, ao prêmio Nature Research Award, sendo a única cientista sul-americana a obter tal indicação. Este prêmio é destinado a mulheres cientistas que inspiram outras meninas/moças/mulheres a ingressarem na carreira científica. Com certeza, Natália é uma dessas mulheres.

A pesquisa está sendo desenvolvida em parceria com pesquisadores/as da Inglaterra e os resultados estão despertando o interesse dos estrangeiros. Em depoimento a Ícaro Carvalho da Tribuna do Norte, publicada em 15/02/2020, ela afirma que: “Grupos estrangeiros estão procurando a tecnologia feita aqui para aplicar em outros lugares do mundo”, fato que demonstra a replicabilidade do projeto em países com outras culturas e outros idiomas. É a ciência nordestina alçando voos internacionais e, levando consigo, o nome de nosso país, mesmo com os parcos recursos destinados a ciência no Brasil. Ela afirma que o índice de sucesso no diagnóstico da esquizofrenia obtido com o uso do programa de computador chega a 90% dos casos analisados.

No ano de 2020 Natália foi eleita uma das mulheres mais poderosas do Brasil pela Forbes Brasil. Isso se deve a capacidade intelectual, seriedade, dedicação e esforços por ela empreendidos ao fazer ciência. 

Mas quem é Natalia Mota?

Para apresentar a pessoa que está por traz deste projeto, entrei em contato com Natália via facebook e ela, gentilmente, me permitiu conhecer as entranhas de sua trajetória. É com base neste depoimento que construo o texto que segue.

Ela é a filha caçula de uma família nordestina tendo mais uma irmã e um irmão. Nascida em Fortaleza, Ceará, desde criança gostava de ciência e cresceu em um ambiente em que a leitura e as discussões políticas eram companhia frequente no cotidiano familiar. O pai foi exilado político devido ao golpe de 64 e a mãe participou ativamente do movimento pela anistia em Fortaleza. Essa militância fez com que eles se conhecessem e formassem uma linda família e nos presenteassem com Natália. A vivência familiar despertou nela o desejo e a certeza que deveria ao menos tentar mudar, para melhor, a realidade na qual estava inserida. Despertou a consciência de que havia muito a ser feito para melhorar a sociedade. Essa consciência norteou sua caminhada.

Natália, motivada pela curiosidade, mesmo tendo predileção para física, foi convencida pelo seu pai e decidiu estudar medicina. Para tal, mudou-se para Natal, no Rio Grande do Norte onde fez a graduação em medicina, residência em psiquiatria, mestrado e doutorado em neurociências pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). Ela se orgulha de ter feito toda a formação acadêmica e científica no nordeste brasileiro. Com essa trajetória, ela evidencia que é possível obter formação de excelência sem, obrigatoriamente, sair de seu habitat, do lugar onde se sente bem, se sente em casa.

Desde o primeiro semestre do curso de medicina, Natália trabalhou no laboratório de neurociências da UFRN e logo se apaixonou pela psiquiatria. Durante o internato, iniciou suas atividades junto ao Instituto de Neurociências de Natal, em parceria com Sidarta Ribeiro, permanecendo lá até 2010 quando saiu para criar o Instituto do Cérebro onde atua até o momento. Durante a residência, coletou relatos de sonhos de seus pacientes e estudou matemática e programação – Sim, médicos/as precisam saber matemática e, no caso de Natália, a programação também foi fundamental.

No mestrado fez a primeira publicação de artigo “sobre análise de grafos em relatos de sonhos, já na perspectiva de auxiliar avaliação mental e diagnóstico” (Natália, 2020). Segundo Natália, no doutorado, teve a oportunidade de “participar por 3 vezes da LASchool, que me ajudou a buscar mais uma perspectiva de desenvolvimento cognitivo típico, e estudar infância e educação. Ganhei muita profundidade e amplitude na interpretação dos resultados que vinha colhendo.”

Natália também é mãe. O primeiro filho nasceu entre a residência e o mestrado e, segundo ela, “no doutorado ele ainda com 3 anos, observava com muita curiosidade e encantamento seu desenvolvimento. Isso transformou sem dúvida minha clínica e pesquisa.” Sim, ela teve que conciliar a maternidade com a vida acadêmica, tarefa que sobrecarrega as mulheres que decidem se desenvolver como profissional sem renunciar à maternidade. Ela afirma:

“Eu pude perceber, também no doutorado, a diferença de retorno para cientistas mulheres, principalmente as mães. De alguma forma sempre creditavam meus trabalhos aos meus colaboradores homens. Em resposta segui publicando, e produzi 15 artigos em 4 anos de doutorado, publicando 11 nesse período (os demais na sequência). Costumo dizer que estava com raiva, brincadeira com um fundo de verdade.”

Este depoimento de Natália evidencia que o trabalho das mulheres cientistas, além de ser dificultado pela forma como nossa sociedade lida com as atividades domésticas, pelos preconceitos que se impõe às mulheres, é, muitas vezes, usurpado pelos colegas do sexo masculino. A “raiva” dela é compreensível e justificada. Como não sentir raiva diante de situações tão injustas?

Mesmo enfrentando estas situações adversas, Natália conseguiu ter seu trabalho reconhecido e manter uma vida familiar saudável. Ao falar sobre sua rotina, ela afirma:

“Sou uma pessoa bem comum, apaixonada pelo trabalho e pelas minhas crias. Adoro brincar com eles, pintar, aquarelar. Danço balet e amo tocar pandeiro com meus amigos músicos. Se deixar viro a noite numa roda de samba. Na quarentena comecei a escrever contos, e como novos projetos estou empreendendo com um sócio uma startup na área de psiquiatria computacional. Dessa maneira pretendo tornar minha pesquisa autônoma financeiramente, e viabilizar a passagem da tecnologia das bancadas e artigos científicos para a vida das pessoas.”

Esta é uma síntese sobre quem é Natália Mota, a cientista que assim como Mandacaru que floresce na seca, conseguiu florescer e superar as adversidades impostas às mulheres cientistas em uma sociedade machista.

Hoje, aos 37 anos de idade, Natália conseguiu inscrever seu nome na história da ciência brasileira. É certamente uma mulher que inspira!

Fontes:

CARVALHO, Ícaro. Natália Mota: “Conseguimos mapear, com muita precisão, a perda de conectividade na esquizofrenia”. Tribuna do Norte. Disponível em: http://www.tribunadonorte.com.br/noticia/conseguimos-mapear-a-perda-de-conectividadea/472390. Acesso em: 27/04/2020.

DUARTE, Rafael. Reconhecida mundialmente, Natália Mota carrega o Nordeste em busca de igualdade e apoio à ciência brasileira. Mandacaru Científico. Disponível em: https://www.uol.com.br/ecoa/reportagens-especiais/causador-natalia-mota/#mandacaru-cientifico. Acesso em: 27/04/2020.

FORBES. As mulheres mais poderosas do Brasil em 2020. Disponível em: https://forbes.com.br/listas/2020/03/as-mulheres-mais-poderosas-do-brasil-em-2020/#foto14. Acesso em: 27/04/2020.

Um comentário sobre “Natália Mota: uma médica e cientista nordestina desvendando a esquizofrenia

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