Por: Lindamir Salete Casagrande

Eberlin (Foto: Divulgação)
Fonte: Revista Gsalileu

Lívia Eberlin é uma cientista brasileira que desenvolveu uma “caneta” capaz de detectar células cancerosas em 10 minutos. Este artefato tecnológico, que carrega em si anos de pesquisa e muito conhecimento, auxilia os médicos e médicas durante as cirurgias para retirada de tumores de câncer.  Durante as cirurgias é impossível enxergar a olho nu se foi retirado todo o tecido doente, fato primordial para o êxito no tratamento. Antes da caneta era necessário manter um/a patologista a disposição durante as cirurgias para analisar as amostras e verificar se toda a lesão havia sido retirada. Cada análise demorava cerca de 30 a 40 minutos. Se o resultado fosse favorável, tudo certo, mas, caso o exame apontasse que ainda não tinha sido retirado todo o tumor havia necessidade de repetir o processo, às vezes, mais de uma vez. Cabe destacar que o/a paciente estava sob efeito de anestesia e isso era muito complicado. Caso a cirurgia fosse finalizada sem a total remoção das células doentes a reincidiva era (e ainda é) quase certa.  

Com a criação desta caneta, o tempo de análise cai para cerca de 10 minutos o que permite que, caso o resultado indique que ainda restam células cancerosas, a retirada seja realizada e o material submetido a novo exame. Com o uso deste artefato tecnológico pode-se preservar ao máximo o órgão acometido pela doença resultando numa melhor recuperação do/a paciente. A presença do/a patologista permanece fundamental, porém, ele/a conta com uma ferramenta a mais para tornar o trabalho mais preciso e exitoso. Como o objetivo de Livia e sua equipe era desenvolver um aparelho auxiliasse os/as médicos/as durante as cirurgias e preservasse ao máximo os tecidos saudáveis, a MasSpec Pen está sendo uma ferramenta adequada e eficaz. Em entrevista para Rodrigo de Oliveira Andrade para artigo publicado na Revista pesquisa FAPESP, edição 277/maio/2019, Lívia afirma:

“Já utilizamos em 70 pacientes e os resultados foram todos muito bons”, e complementa, “O dispositivo, ainda em fase de testes, conseguiu analisar com sucesso tecidos cancerígenos e saudáveis.”

Os estudos desenvolvidos por Livia com o intuito de criar equipamentos que facilitem e melhorem o diagnóstico de câncer estão sendo reconhecidos e ela recebeu, neste ano de 2019, “uma bolsa da Fundação MacArthur, concedida a profissionais de destaque em suas áreas de atuação” (ANDRADE, 2019, online). Ela terá a disposição de sua equipe US$ 625mil dólares pra aplicar em suas pesquisas, da forma que achar melhor, durante os próximos 5 anos. A ideia de Lívia é disseminar o uso MasSpec Pen em hospitais mundo afora.

Pesquisadores fazendo testes com a caneta que detecta câncer (Foto: The MacArthur Foundation)
Fonte: Revista Galileu

Mas, quem é esta cientista brasileira? 

Lívia é filha do também químico e professor Marcos Eberlin, responsável pelo Laboratório ThoMSon do Instituto de Química da Unicamp. Fez bacharelado em Química na Universidade de Campinas concluído em 2008. Durante a graduação foi iniciada nos estudos em espectrometria de massas pelo próprio pai. Quando estava no segundo ano da graduação decidiu estagiar, durante as férias, no Laboratório Aston da Universidade de Purdue, em Indiana, nos Estados Unidos. Com o estímulo de seu orientador de iniciação científica e intermediação de seu pai, e com isso ela pode estagiar com o professor Robert Graham Cooks com quem, posteriormente, fez seu doutoramento, iniciado em 2008, sem passar pelo mestrado. Livia destaca que o que diferencia a ciência desenvolvida no Brasil da ciência feita nos EUA é a pouca destinação de recursos às instituições de pesquisa brasileiras. Em entrevista a Luiz Sugimoto no número 599 do jornal da Unicamp, publicado em 2014, ela ressalta que:

 “O professor Cooks foi fundamental ao me dar a chance de aplicar a técnica na detecção de cânceres, mas esta conquista não seria possível sem a excelente formação que recebi na Unicamp e no Laboratório ThoMSon do IQ – foi o meu alicerce.”

 Ela poderia ter (e talvez tenha) sido acusada de conseguir fazer esta trajetória graças a influência de seu pai, o que de fato pode ter contribuído, porém em nada teria resultado se não fosse a capacidade e dedicação aos estudos e à ciência de Livia. Marcos Eberlin esclarece:

“Ser minha filha é coincidência, pois Livia passou em vigésimo lugar no vestibular da Unicamp e em primeiro na Química, tendo sido uma excelente aluna de iniciação científica. Antes de se graduar, ela quis fazer um estágio no exterior e, já conhecendo bem os nossos equipamentos e os princípios da espectrometria de massas, passou três períodos de férias trabalhando para o professor Cooks, decidindo então pelo doutorado com ele. É a segunda geração de Eberlin’s naquele laboratório da Universidade de Purdue” (SUGIMOTO, 2014, online).

No ano de 2011, após a conclusão do doutorado, ela mudou-se para a California e iniciou o pós-doutorado no Departamento de Química da Universidade Stanford e foi supervisionada pelo químico Richard Zare, tendo a oportunidade de continuar as pesquisas na mesma temática.

No ano de 2014 ela recebeu o prêmio de melhor tese de doutorado em química dos Estados Unidos da América, razão pela qual recebeu o Nobel Laureate Signature Award 2014 – prêmio desejado pelos/as pesquisadores/as da área e traz a assinatura da maioria dos/as cientistas que ganharam o prêmio Nobel de Química. Ela foi a primeira cientista brasileira (mulher e homem) a ganhar esta láurea.

Em 2016 conseguiu uma vaga de professora assistente no Departamento de Química da Universidade do Texas, em Austin, EUA. Ali ela formou sua própria equipe de pesquisadores/as e desenvolveu o projeto que resultou na produção do dispositivo MasSpec Pen sobre o qual versamos no início deste post.

Livia conta com mais de 20 premiações ao longo de sua trajetória acadêmica que pode ser considerada meteórica. Aos 32 anos já é PhD em Química e conta com sua própria equipe de pesquisa. Porém, nem tudo foram flores. Sugimoto (2014, online) destaca que “Na primeira vez em que Livia Eberlin se posicionou com seu equipamento na sala de cirurgia do hospital da Harvard Medical School, os médicos lhe dirigiram olhares céticos, como se perguntassem o que uma química fazia ali.” Mas Livia sabia muito bem o que fazia ali. Fazia ciência, fazia história.

Fontes:

CENTAMORI, Vanessa. Cientista brasileira cria caneta que detecta câncer durante cirurgias. Revista Galileu, 2019. https://revistagalileu.globo.com/Ciencia/noticia/2019/09/cientista-brasileira-cria-caneta-que-detecta-cancer-durante-cirurgias.html. Acesso em: 19/10/2019.

INCLUSÃO 360. Livia Eberlin, cientista brasileira PhD de 32 anos, ganha bolsa para ‘gênios’ nos EUA. Disponível em: https://www.inclusao360.org/mulheres/livia-eberlin-cientista-brasileira-phd-de-32-anos-ganha-bolsa-para-genios-nos-eua/.  Acesso em: 19/10/2019.

MACARTHUR FOUNDATION. Livia S. Eberlin. Disponível em: https://www.macfound.org/fellows/1008/. Acesso em: 19/10/2019.

SUGIMOTO, Luiz. Técnica pioneira rende prêmio nos EUA a graduada pela Unicamp. Jornal da Unicamp, Campina, 2019. Disponível em: https://www.unicamp.br/unicamp/ju/599/tecnica-pioneira-rende-premio-nos-eua-graduada-pela-unicamp. Acesso em: 19/10/2019.

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